Crença 24 · Doutrina: Últimos Eventos
O Ministério de Cristo no Santuário Celestial
Aparência da leitura
Toque em uma citação bíblica para ler seus versículos e em um número entre colchetes para ver a referência.
O Ministério de Cristo no Santuário Celestial
Há um santuário no Céu, o verdadeiro tabernáculo que o Senhor erigiu, não seres humanos. Nele Cristo ministra em nosso favor, tornando acessíveis aos crentes os benefícios de seu sacrifício expiatório oferecido uma vez por todas na cruz. Em sua ascensão, Ele foi empossado como nosso grande Sumo Sacerdote e começou seu ministério intercessório, que foi tipificado pela obra do sumo sacerdote no lugar santo do santuário terrestre. Em 1844, no fim do período profético dos 2.300 dias, Ele iniciou a segunda e última etapa de seu ministério expiatório, que foi tipificado pela obra do sumo sacerdote no lugar santíssimo do santuário terrestre. É uma obra de juízo investigativo, a qual faz parte da eliminação final de todo pecado, prefigurada pela purificação do antigo santuário hebraico, no Dia da Expiação. Nesse serviço típico, o santuário era purificado com o sangue de sacrifícios de animais, mas as coisas celestiais são purificadas com o perfeito sacrifício do sangue de Jesus. O juízo investigativo revela aos seres celestiais quem dentre os mortos dorme em Cristo, sendo, portanto, nele, considerado digno de ter parte na primeira ressurreição. Também torna manifesto quem, dentre os vivos, permanece em Cristo, guardando os mandamentos de Deus e a fé de Jesus, estando, portanto, nele, preparado para a trasladação ao seu reino eterno. Este julgamento vindica a justiça de Deus em salvar os que creem em Jesus. Declara que os que permaneceram leais a Deus receberão o reino. A terminação do ministério de Cristo assinalará o fim do tempo da graça para os seres humanos, antes do segundo advento (Hb 8:1-5; 4:14-16; 9:11-28; 10:19-22; 1:3; 2:16, 17; Dn 7:9-27; 8:13, 14; 9:24-27; Nm 14:34; Ez 4:6; Lv 16; Ap 14:6, 7; 20:12; 14:12; 22:12).
O Ministério de Cristo no Santuário Celestial
chegada a hora do sacrifício da tarde. O sacerdote está em pé no pátio do
É templo de Jerusalém, pronto para oferecer um cordeiro como sacrifício. Ergue o cutelo para imolar a vítima, mas nesse momento a Terra sofre uma convulsão. Aterrorizado, ele solta o cutelo e o cordeiro escapa. Por sobre o estrondo do terremoto, ele ouve um alto ruído de algo que se rasga, enquanto mãos invisíveis partem o véu do templo de alto a baixo.
Fora da cidade, nuvens negras envolvem uma cruz. Quando Jesus, o Cordeiro Pascal de Deus, exclama: “Está feito!”, Ele morre pelos pecados do mundo.
O tipo encontrara o antítipo. O próprio evento ao qual os serviços do templo haviam apontado durante séculos, acabara de ocorrer. O Salvador completara seu sacrifício expiatório, e pelo fato de o símbolo haver encontrado a realidade, os rituais que antecipavam esse sacrifício haviam sido ultrapassados. Por essa razão, o véu rasgou-se, o cutelo caiu das mãos do sacerdote e o cordeiro escapou.
Há mais, porém, em relação à história da salvação. A questão vai além da cruz. A ressurreição e a ascensão de Jesus dirigem nossa atenção para o santuário celestial onde, não mais como Cordeiro, Ele ministra como sacerdote. O sacrifício foi oferecido uma vez por todas (Hb 9:28); agora Ele torna disponíveis a todos os benefícios de seu sacrifício expiatório.
O santuário celestial
Deus instruiu Moisés quanto à construção do lugar em que, na Terra, Ele iria habitar (Êx 25:8); tratava-se do primeiro santuário, oqual funcionou sob o primeiro (velho) concerto (Hb 9:1). Esse era o lugar no qual se ensinava ao povo o caminho da salvação. Cerca de 400 anos mais tarde, o templo permanente em Jerusalém, construído pelo rei Salomão, ocupou o lugar do tabernáculo transportável de Moisés. Depois que Nabucodonosor destruiu o templo, os exilados que retornaram de Babilônia construíram o segundo templo, que foi mais tarde embelezado grandemente por Herodes, o Grande;este último templo foi destruído pelos romanos no ano 70 d.C.
O Novo Testamento revela que o novo concerto também possui seu templo, e este se encontra no Céu. Nele Cristo trabalha como sumo sacerdote “à destra do trono da Majestade”. Esse santuário é o “verdadeiro tabernáculo que o Senhor erigiu, não o homem” (Hb 8:1, 2).[1] No monte Sinai, foi mostrado a Moisés um “modelo”, cópia ou miniatura do santuário celestial (Êx 25:9, 40).[2] As Escrituras identificam o santuário mosaico como “figuras das coisas que se acham nos céus” e “figura do verdadeiro” santuário (Hb 9:23, 24). O santuário terrestre e seus serviços nos proveem, portanto, vislumbres especiais no tocante ao papel do santuário celestial.
Em toda a sua extensão, a Escritura presume a existência de um templo ou santuário celestial (por exemplo, Sl 11:4; 102:19; Mq 1:2, 3).[3] Em visão, o apóstolo João contemplou o santuário celestial. Ele o descreve como “o santuário do tabernáculo do testemunho” que está no Céu (Ap 15:5) e “o santuário de Deus, que se acha no Céu” (Ap 11:19). Ele chegou a contemplar os itens que constituíram o modelo para a mobília que ocupava o espaço do lugar santo do santuário terrestre, tais como o castiçal com sete lâmpadas (Ap 1:12) e o altar de incenso (Ap 8:3). Viu também a arca da aliança, que no santuário terrestre ocupava o Santo dos Santos (Ap 11:19).
O altar de incenso do santuário celestial acha-se situado diante do trono de Deus (Ap 8:3; 9:13), que se localiza no templo celestial de Deus (Ap 4:2; 7:15; 16:17). Portanto, a cena do trono celestial (Dn 7:9, 10) ocorre no templo ou santuário celestial. É por essa razão que os juízos finais de Deus partem de seu templo (Ap 15:5-8).
Torna-se claro, portanto, que as Escrituras apresentam o santuário celestial como um lugar efetivamente existente (Hb 8:2), não como uma metáfora ou abstração.[4] O santuário celestial é o lugar primário de habitação de Deus.
O ministério no santuário celestial
A mensagem do santuário era uma mensagem de salvação. Deus utilizou os seus serviços para proclamar o evangelho (Hb 4:2). Os serviços do santuário terrestre eram “uma parábola para a época presente” até o tempo da primeira vinda de Cristo (Hb 9:9, 10). “Através de símbolos e rituais Deus propôs, por meio desse evangelho-parábola, focalizar a fé de Israel no sacrifício e ministério sacerdotal do Redentor do mundo, o ‘Cordeiro de Deus’ que haveria de remover todo pecado do mundo (Gl 3:23; Jo 1:29).”[5]
O santuário ilustra três fases do ministério de Cristo: (1) sacrifício substitutivo, (2) mediação sacerdotal e (3) julgamento final.
O sacrifício substitutivo. Todos os sacrifícios do santuário simbolizavam a morte de Jesus para o perdão dos pecados, revelando a verdade de que “sem derramamento de sangue, não há remissão” (Hb 9:22). Esses sacrifícios ilustravam as seguintes verdades:
1. Deus julga o pecado. Pelo fato de o pecado constituir uma profunda rebelião contra tudo o que é bom, puro e verdadeiro, ele não pode ser ignorado. “O salário do pecado é a morte” (Rm 6:23).
2. A morte substitutiva de Cristo. “Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; [...] mas o SENHOR fez cair sobre Ele a iniquidade de nós todos” (Is 53:6); “Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras” (1Co 15:3).
3. Deus provê o sacrifício expiatório. Esse sacrifício é “Cristo Jesus, a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé” (Rm 3:24, 25). “Aquele que não conheceu pecado, Ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus” (2Co 5:21). Cristo, o Redentor, assumiu sobre si o julgamento do pecado. Portanto, “Cristo foi tratado como nós merecíamos, para que pudéssemos receber o tratamento a que Ele tinha direito. Foi condenado pelos nossos pecados, nos quais não tinha participação, para que fôssemos justificados por sua justiça, na qual não tínhamos parte. Sofreu a morte que nos cabia, para que recebêssemos a vida que a Ele pertencia. ‘Pelas suas pisaduras fomos sarados’ (Is 53:5).”[6]
Os sacrifícios do santuário terrestre eram repetitivos. Tal qual uma história, esse ritual – parábola da redenção – era contado e recontado ano após ano. Em contraste, o antítipo – o verdadeiro sacrifício expiatório, a morte do Senhor – ocorreu no Calvário uma vez por todas (Hb 9:26-28; 10:10-14).
Na cruz, a penalidade pelo pecado humano foi plenamente paga. A justiça divina foi satisfeita. Sob a perspectiva legal, o mundo havia sido restaurado ao favor divino (Rm 5:18). A expiação, ou reconciliação, foi completada na cruz, conforme antecipada pelos sacrifícios, e o pecador penitente pode confiar plenamente nessa obra do Senhor, concluída.[7]
O Mediador sacerdotal. Se o sacrifício expiou os pecados, por que era necessário um sacerdote?
O papel do sacerdote chamava a atenção para a necessidade de mediação entre os pecadores e um Deus santo. A mediação sacerdotal revela a gravidade do pecado e a alienação que ele ocasionou entre um Deus sem pecado e a criatura pecaminosa. “Assim como cada sacrifício antecipava a morte de Cristo, assim cada sacerdote antecipava o ministério mediatório de Cristo como sumo sacerdote no santuário celestial. ‘Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem’ (1Tm 2:5).”[8]
1. Mediador e expiação. A aplicação do sangue expiatório durante o ministério mediatório dos sacerdotes era também vista como uma forma de expiação (Lv 4:35). Em inglês, o termo atonement (expiação) implica reconciliação entre duas partes que se achavam rompidas. Assim como a morte expiatória de Cristo reconciliou o mundo com Deus, assim a sua mediação, ou aplicação dos méritos de sua vida sem pecado e morte substitutiva, faz da reconciliação ou expiação com Deus uma realidade pessoal para o crente.
O sacerdócio levítico ilustra o ministério redentor que Cristo tem desempenhado desde sua morte. Nosso Sumo Sacerdote, que serve “à destra do trono da Majestade nos céus”, trabalha “como ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo que o Senhor erigiu, não o homem” (Hb 8:1, 2).
O santuário celestial é o grande centro de comando, de onde Cristo conduz seu ministério sacerdotal em favor de nossa salvação. Ele é capaz de “salvar totalmente os que por Ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles” (Hb 7:25). Portanto, somos estimulados a nos aproximar “confiadamente, junto ao trono da graça. A fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna” (Hb 4:16).
No santuário terrestre, os sacerdotes desempenhavam dois ministérios distintos – o ministério diário no lugar santo, ou primeiro compartimento (ver capítulo 4 deste livro), e o ministério anual no lugar santíssimo, ou segundo compartimento. Esses serviços ilustravam o ministério sacerdotal de Cristo.[9]
2. O ministério no lugar santo. O ministério sacerdotal no lugar santo do santuário poderia ser caracterizado como um ministério de intercessão, perdão, reconciliação e restauração. Sendo contínuo, provia contínuo acesso a Deus, por meio do sacerdote.[10] Simbolizava a verdade de que o pecador arrependido dispõe de imediato e contínuo acesso a Deus por intermédio do ministério sacerdotal de Cristo como nosso intercessor e mediador (Ef 2:18; Hb 4:14-16; 7:25; 9:24; 10:19-22).
Quando o pecador penitente[11] vinha ao santuário com um sacrifício, depunha as mãos sobre a cabeça do inocente animal e confessava seus pecados. Esse ato transferia simbolicamente seus pecados e penalidade para a vítima. Como resultado, ele obtinha perdão de suas transgressões.[12] Assim estabelece The Jewish Encyclopedia: “A deposição de mãos sobre a cabeça da vítima é um rito comum, pelo qual são efetuadas a substituição e a transferência de pecados.” “Em cada sacrifício acha-se presente a ideia de substituição; a vítima assume o lugar do pecador humano.”[13]
O sangue da oferta pelo pecado era aplicado de duas formas: a) Se ele fosse levado para o lugar santo, era aspergido diante do véu interno e colocado nos cantos do altar de incenso (Lv 4:6, 7, 17, 18). b) Se não era conduzido para o lugar santo, sua colocação era feita nos cantos do altar de holocaustos, no pátio (Lv 4:25, 30). Nesse caso, o sacerdote comia parte da carne do sacrifício (Lv 6:25, 26, 30). Em ambos os casos, os participantes entendiam que seus pecados e responsabilidades eram transferidos ao santuário e seu sacerdócio.[14]
“Nesta parábola ritual, o santuário assumia a culpa e a responsabilidade do penitente – pelo menos durante certo tempo – quando o penitente oferecia a oferta pelo pecado, confessando seus erros. Ele saía dali perdoado, certo da aceitação divina. Assim, no serviço antitípico, quando um pecador é levado pelo Espírito Santo a aceitar a Cristo como seu Salvador e Senhor, Cristo assume seus pecados e responsabilidade. Ele é perdoado graciosamente. Cristo é o fiador do crente, bem como o seu substituto.”[15]
Tanto no tipo quanto no antítipo, o ministério do lugar santo centraliza-se primariamente no indivíduo. O ministério sacerdotal de Cristo providencia o perdão do pecador e sua reconciliação com Deus (Hb 7:25). “Em consideração a Cristo, Deus perdoa o pecador arrependido, imputa-lhe o reto caráter e a obediência de seu Filho, perdoa seus pecados, e registra seu nome no livro da vida, como um de seus filhos (Ef 4:32; 1Jo 1:9; 2Co 5:21; Rm 3:24; Lc 10:20). E à medida que o crente permanece em Cristo, a graça espiritual lhe é mediada por meio de nosso Senhor, por meio do Espírito Santo, de modo que ele alcança maturidade espiritual e desenvolve as virtudes e graças que refletem o divino caráter (2Pe 3:18; Gl 5:22, 23).”[16]
O ministério no lugar santo efetua a justificação e santificação do crente.
O julgamento final. Os eventos do Dia da Expiação ilustram as três fases do divino julgamento final. São elas: (1) o “julgamento pré- milenial” (ou “juízo investigativo”), que também é conhecido como “julgamento pré-advento”; (2) o “julgamento milenial”; e (3) o “julgamento executivo”, que ocorre ao final do milênio.
1. O ministério no lugar santíssimo. A segunda divisão do ministério sacerdotal acha-se centralizada primariamente no santuário, tendo a ver com a purificação do santuário e do povo de Deus. Essa forma de ministério, que focalizava o lugar santíssimo do santuário e que podia ser desempenhada tão somente pelo sumo sacerdote, limitava-se a um único dia do calendário religioso.
A purificação do santuário requeria dois bodes – o bode do Senhor e o bode emissário (Azazel, em hebraico). Ao sacrificar o bode do Senhor, o sumo sacerdote efetuava a expiação pelo “santuário [na verdade, ‘santuário’ em todo este capítulo refere-se ao lugar santíssimo], pela tenda da congregação [o lugar santo], e pelo altar [o pátio]” (Lv 16:20; cf. 16:16-18).
Tomando o sangue do bode do Senhor, o qual representava o sangue de Cristo, e levando-o para o interior do lugar santíssimo, o sumo sacerdote aplicava-o diretamente, na própria presença de Deus, ao propiciatório – a cobertura da arca, dentro da qual estavam contidos os Dez Mandamentos – a fim de satisfazer as exigências da santa lei de Deus. Sua ação simbolizava o imensurável preço que Cristo teria de pagar pelos nossos pecados, revelando quão ansioso Deus se sente por efetuar a reconciliação de seu povo consigo mesmo (cf. 2Co 5:19). Então, o sumo sacerdote aplicava esse sangue ao altar do incenso e ao altar dos holocaustos, os quais haviam sido diariamente aspergidos com o sangue que representava os pecados confessados. Dessa forma, o sumo sacerdote efetuava a expiação pelo santuário, bem como pelo povo, efetuando a purificação de ambos (Lv 16:16-20, 30-33). Passo seguinte, representando a Cristo como mediador, o sumo sacerdote assumia sobre si próprio os pecados que haviam poluído o santuário e os transferia para o bode vivo, Azazel, o qual era então conduzido para fora do acampamento do povo de Deus. Esse ato removia os pecados do povo, os quais a essa altura haviam sido simbolicamente transferidos dos crentes arrependidos para o santuário através do sangue ou da carne dos sacrifícios do ministério diário de perdão. Deste modo o santuário era purificado e preparado para mais um ano de atividade ministerial (Lv 16:16-20, 30-33).[17] E assim todas as coisas eram colocadas em ordem entre Deus e seu povo.[18]
Vemos assim que o dia da expiação ilustra o processo de julgamento que lida com a erradicação do pecado. A expiação levada a efeito nesse dia “prefigurava a aplicação final dos méritos de Cristo a fim de banir a presença do pecado por toda a eternidade, e para empreender plena reconciliação do universo, sob o governo harmonioso de Deus”.[19]
Planta do santuário hebraico
2. Azazel, o bode emissário. “A tradução ‘bode emissário’, do hebraico azazel, provém da Vulgata, com a expressão ‘caper emissarius’, ‘bode a ser mandado embora’ (Lv 16:8).[20] O exame cuidadoso de Levítico 16 revela que Azazel representa Satanás, e não Cristo, conforme alguns têm imaginado. São estes os argumentos que apoiam essa interpretação: “(1) o bode emissário não era morto como sacrifício, e assim não poderia ser usado como um meio para trazer o perdão, uma vez que ‘sem derramamento de sangue, não há remissão’ (Hb 9:22); (2) o santuário era inteiramente purificado pelo sangue do bode do Senhor antes que o bode emissário fosse introduzido no ritual (Lv 16:20); (3) a passagem trata o bode emissário como um ser pessoal que é o oposto, e se opõe, a Deus (Lv 16:8 diz, literalmente: ‘Um para o SENHOR, o outro para Azazel’). Portanto, na compreensão da parábola do santuário, é mais coerente ver o bode do Senhor como símbolo de Cristo e o bode emissário – Azazel – como símbolo de Satanás.”[21]
3. As diferentes fases do julgamento. O ritual do bode emissário no dia da expiação apontava para além do Calvário, ao fim do último problema do pecado – o banimento deste e de Satanás. A “plena responsabilidade pelo pecado será devolvida a Satanás, o seu originador e instigador. Satanás e seus seguidores, bem como todos os efeitos do pecado, serão banidos do universo por meio da destruição. A expiação por meio do julgamento, portanto, fará brotar um universo plenamente reconciliado e harmonioso (Ef 1:10). Esse é o objetivo que a segunda e última fase do ministério de Cristo como sacerdote do santuário celestial atingirá”.[22] Esse julgamento testemunhará a vindicação final de Deus diante do universo.[23]
O Dia da Expiação retratava as três fases do julgamento final:
a. A remoção dos pecados do santuário relaciona-se com a primeira fase – a investigativa, ou fase pré-advento – do julgamento. Ela “focaliza os livros anotados no Livro da Vida, assim como o Dia da Expiação focalizava a
remoção dos pecados confessados do penitente, do santuário. Falsos crentes serão eliminados; a fé dos genuínos crentes e sua união com Cristo serão reafirmadas perante o universo leal, e os registros de seus pecados serão apagados”.[24]
b. O banimento do bode emissário para o deserto simboliza a prisão de Satanás durante o milênio, na desolada Terra; este milênio começa por ocasião do segundo advento e coincide com a segunda fase do julgamento final, a qual ocorre no Céu (Ap 20:4; 1Co 6:1-3). Esse julgamento milenial envolve a revisão do julgamento dos maus e será empreendido em benefício dos redimidos, ao conceder-lhes o vislumbre do trato de Deus com o pecado e com aqueles pecadores que não se salvarão. Será respondida assim qualquer pergunta que os salvos possam ter a respeito da justiça e da misericórdia de Deus (ver capítulo 27).
c. O acampamento purificado simboliza os resultados da terceira fase do julgamento, a fase executiva, quando o fogo destruirá os maus e purificará a Terra (Ap 20:11-15; Mt 25:31-46; 2Pe 3:7-13; ver capítulo 27 deste livro).
O santuário celestial na profecia
Na discussão anterior, focalizamos o santuário a partir da perspectiva de tipo e antítipo. Queremos agora examiná-lo a partir da perspectiva profética.
A unção do santuário celestial. A profecia das 70 semanas de Daniel 9apontava para a inauguração do ministério sacerdotal de Cristo no santuário celestial. Um dos últimos eventos, que deveria ocorrer durante os 490 anos, era a unção do “Santo dos Santos” (Dn 9:24; ver capítulo 4 deste livro). A expressão hebraica qodesh qodeshim, que foi traduzida como “santíssimo”, significa literalmente “Santo dos Santos”. A frase seria melhor traduzida, portanto, como “ungir o Santo dos Santos” [como, convém observar, ela realmente aparece na Versão Almeida Revista e Atualizada].
Assim como em sua inauguração o santuário terrestre foi ungido com óleo sagrado a fim de que tal ato o consagrasse para os seus serviços, assim, em sua inauguração, o santuário celeste também deveria ser consagrado para o ministério intercessório de Cristo. Com sua ascensão pouco tempo depois de sua morte (Dn 9:27),[25] Cristo iniciou seu ministério como nosso sumo sacerdote e intercessor.
A purificação do santuário celestial. Falando da purificação do santuário celestial, o livro de Hebreus afirma: “Com efeito, quase todas as coisas, segundo a lei, se purificam com sangue: e sem derramamento de sangue não há remissão. Era necessário, portanto, que as figuras das coisas que se acham nos céus se purificassem com tais sacrifícios, mas as próprias coisas celestiais com sacrifícios a eles superiores” – o precioso sangue de Cristo (Hb 9:22, 23).
Vários comentaristas bíblicos têm observado este ensinamento bíblico. Henry Alford assinalou que “o próprio Céu necessitava, e obteve, purificação através do sangue expiatório de Cristo”.[26] B. F. Westcott comentou: “Pode-se dizer que mesmo as ‘coisas celestiais’, na extensão em que personificam as condições da futura vida do homem, adquiriram pela queda alguma coisa que necessitava ser purificada.” Foi o sangue de Cristo, disse Westcott, que se achava disponível “para a purificação do celestial arquétipo do santuário terrestre”.[27]
Assim como os pecados do povo de Deus eram pela fé transferidos para a oferta pelo pecado e então simbolicamente transportados para o santuário celestial, assim, sob o novo concerto, os pecados confessados pelo penitente são pela fé colocados sobre Cristo.[28]
Do modo como durante o Dia da Expiação típico a purificação do santuário removia os pecados que já se haviam acumulado, assim o santuário celestial é purificado pela remoção final de todos os pecados registrados nos livros celestiais. Entretanto, antes que os registros sejam finalmente limpos, serão eles examinados a fim de se determinar quem, através de arrependimento e fé em Cristo, está apto a entrar em seu reino eterno. Portanto, a purificação do santuário celestial envolve uma obra de juízo investigativo[29] que reflete plenamente a natureza do Dia da Expiação como dia de julgamento.[30] Esse julgamento, que ratifica as decisões quanto a quem deverá estar entre os salvos e quem estará entre os perdidos, deve ocorrer antes da segunda vinda, pois, por ocasião do segundo advento, Cristo deverá retribuir “a cada um segundo as suas obras” (Ap 22:12). Naquela oportunidade também serão respondidas as acusações de Satanás (cf. Ap 12:10).
Todos aqueles que verdadeiramente se arrependeram e pela fé reclamaram o sangue do sacrifício expiatório de Cristo, terão assegurado o perdão. Quando seus nomes forem chamados a julgamento e se constatar que eles estão revestidos pelo manto da justiça de Cristo, seus pecados serão apagados e eles serão considerados dignos da vida eterna (Lc 20:35). “O vencedor”, disse Jesus, “será assim vestido de vestiduras brancas, e de modo nenhum apagarei o seu nome do livro da vida; pelo contrário, confessarei o seu nome diante de meu Pai e diante dos seus anjos” (Ap 3:5).
O profeta Daniel revela a natureza desse julgamento investigativo. Enquanto o poder apóstata simbolizado pelo chifre pequeno leva avante suas blasfêmias e sua obra de perseguição contra Deus e seu povo na Terra (Dn 7:8, 20, 21, 25), tronos são colocados no Céu e Deus preside a sessão do tribunal nesse julgamento final. Ele ocorre na sala do trono do santuário celestial e é assistido por multidões de testemunhas celestiais. Quando o tribunal entra em funcionamento, os livros são abertos, assinalando o início do processo de investigação (Dn 7:9, 10). Somente depois desse julgamento é que o poder apóstata é destruído (Dn 7:11).[31]
A ocasião do julgamento. Tanto o Pai quanto Cristo acham-se envolvidos no juízo investigativo. Antes de seu retorno à Terra nas “nuvens do Céu”, Cristo, na qualidade de “Filho do homem” vem “com as nuvens do Céu” até o “Ancião de Dias”, Deus Pai, e posta-se diante dele (Dn 7:13). Desde o momento de sua ascensão, tem Jesus Cristo trabalhado como sumo sacerdote, nosso intercessor diante de Deus (Hb 7:25). Mas, nessa oportunidade, Ele vem para receber o reino (Dn 7:14).
1. Tentativa de eclipsar o ministério sacerdotal de Cristo. Daniel 8 nos fala a respeito da controvérsia entre o bem e o mal e do triunfo final de Deus. Esse capítulo revela que no espaço decorrido entre a inauguração do ministério sumo-sacerdotal de Cristo e a purificação do santuário celestial, um poder terrestre haveria de obscurecer o ministério de Cristo.
O carneiro da visão representava o império Medo-Persa (Dn 8:2) – sendo que dos dois chifres, o mais alto apareceu por último, retratando claramente as duas fases do império, em que os persas dominantes entraram em cena por último. Conforme Daniel predissera, esse reino oriental exaltaria o seu poder “para o ocidente, e para o norte, e para o sul”, e assim se engrandeceria (Dn 8:4).
O bode que vinha do ocidente simbolizava a Grécia, com o seu grande chifre, o “primeiro rei” representando Alexandre, o Grande (Dn 8:21). Provindo “do ocidente”, Alexandre rapidamente derrotou os persas. Depois, dentro de poucos anos após sua morte, o império foi dividido em “quatro reinos” (Dn 8:8, 22) – os reinos de Cassandro, Lisímaco, Seleuco e Ptolomeu.
“No fim do seu reinado” (Dn 8:23), ou, em outras palavras, próximo ao fim do dividido império grego, surgiria um “chifre pequeno” (Dn 8:9). Alguns consideram Antíoco Epifânio, um rei sírio que governou sobre a Palestina durante curto período no segundo século a.C., como sendo o cumprimento desta porção da profecia. Outros, incluindo a maioria dos reformadores, têm identificado este chifre pequeno como Roma, tanto em sua fase pagã quanto na fase papal. Essa última interpretação corresponde exatamente às especificações dadas por Daniel, ao passo que a outra não o faz.[32] Observe os seguintes pontos:
a. O poder do chifre pequeno estende-se desde a queda do império grego até o “tempo do fim” (Dn 8:17). Somente Roma, pagã e papal, preenche essas especificações quanto ao tempo.
b. As profecias de Daniel 2, 7 e 8 correm paralelamente (ver quadro de paralelismo profético à página 408 deste livro). Os quatro metais da imagem de Daniel 2, assim como as quatro animais de Daniel 7, representam os mesmos impérios mundiais: Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia e Roma. Tanto os pés de ferro e barro como os dez chifres do quarto animal representam as divisões do império romano. Esses estados divididos deveriam continuar até o segundo advento. Observe que ambas as profecias indicam que Roma sucederia a Grécia, e que ela seria o último império antes da segunda da vinda de Cristo e do julgamento final. O chifre pequeno de Daniel 8 se encaixa na mesma moldura; sucede a Grécia e é destruído de modo sobrenatural, ou “sem mão humana” (Dn 8:25; cf. Dn 2:34).[33]
c. A Medo-Pérsia é identificada como “grande”, a Grécia é apresentada como “muito grande” e o chifre pequeno como “excessivamente grande” (Dn 8:4, 8, 9). Roma, um dos maiores impérios mundiais, preenche bem essa especificação.
d. Somente Roma expandiu seu império para o sul (Egito), para o leste (Macedônia e Ásia Menor) e para a “terra gloriosa” (Palestina), exatamente como predissera a profecia (Dn 8:9).
e. Roma se ergueu contra o “príncipe do exército”, o “Príncipe dos príncipes” (Dn 8:11, 25), que é ninguém menos que Jesus Cristo. “Contra Ele e seu povo, assim como contra o seu santuário, o poder de Roma desenvolveu a mais extraordinária guerra. Essa descrição cobre tanto a fase pagã quanto a fase papal de Roma. Enquanto Roma pagã atingiu a Cristo e até mesmo destruiu o templo de Jerusalém, Roma papal efetivamente obscureceu o ministério mediatório, sacerdotal de Cristo em favor dos pecadores no santuário celestial (Hb 8:1, 2), ao instituir um sacerdócio que pretende oferecer perdão através da mediação humana”[34] (ver capítulo 13 deste livro). Esse poder apóstata alcançaria bastante êxito, pois “deitou por terra a verdade; e o que fez prosperou” (Dn 8:12).
2. O tempo da restauração, purificação e julgamento. Deus não permitiria que o eclipsamento da verdade relativa ao ministério sumo-sacerdotal de Cristo prosseguisse indefinidamente. Por meio de homens e mulheres fiéis e tementes a Deus, Ele reavivaria sua causa. A Reforma redescobriu parcialmente o papel de Cristo como nosso mediador, o que ocasionou grande reavivamento no seio do mundo cristão. Contudo, havia ainda outras verdades a serem reveladas acerca do ministério celestial de Cristo.
A visão de Daniel indicara que o papel de Cristo como nosso sumo sacerdote se tornaria especialmente notável no “tempo do fim” (Dn 8:17), quando Ele começasse sua obra especial de purificação e julgamento, em adição ao seu contínuo ministério intercessório (Hb 7:25).[35] A visão especifica o momento em que Jesus deveria começar seu antitípico ministério do dia da expiação – a tarefa de juízo investigativo (Daniel 7) e purificação do santuário – “Até duas mil e trezentas tardes e manhãs; e o santuário será purificado” (Dn 8:14).[36] Uma vez que a visão se refere ao tempo do fim, o santuário aqui mencionado não pode ser o santuário terrestre – pois esse já havia sido destruído em 70 d.C. Portanto, a profecia deve se referir ao santuário do novo concerto no Céu – o lugar em que Jesus ministra em favor de nossa salvação.
O que são os 2.300 dias ou “2.300 tardes-manhãs”, segundo aparece o texto no original hebraico?[37] De acordo com Gênesis 1, a expressão “tarde e manhã” equivale a um dia. Conforme vimos nos capítulos 4 e 13 deste livro, um período de tempo em profecia simbólica também é simbólico: um dia profético representa um ano. Assim, de acordo com o que muitos cristãos ao longo dos séculos têm acreditado, os 2.300 dias de Daniel 8 significam 2.300 anos literais.[38]
a. Daniel 9: a chave para desvendar Daniel 8. Deus comissionou o anjo Gabriel a fazer o profeta Daniel “entender a visão” (Dn 8:16). Mas o impacto das informações foi tão grande, que Daniel adoeceu e Gabriel teve de descontinuar a explicação. Encerrando o capítulo 8, Daniel observou: “Espantava-me com a visão, e não havia quem a entendesse” (Dn 8:27).
Em virtude dessa interrupção, Gabriel teve de retardar a explicação relativa ao período de tempo envolvido – o único aspecto da visão que ainda não havia sido explicado. Daniel 9 descreve o seu retorno com o objetivo de completar a tarefa. Portanto, Daniel 8 e 9 acham-se conectados, sendo o segundo a chave com a qual desvendamos o mistério dos 2.300 dias.[39] Quando Gabriel apareceu, disse a Daniel: “No princípio das tuas súplicas, saiu a ordem, e eu vim, para to declarar, [...] considera, pois, a coisa e entende a visão” (Dn 9:23). Ele está se referindo retroativamente à visão dos 2.300 dias. Seu desejo de explicar os elementos de tempo da visão de Daniel 8 torna claro por que ele começa sua explicação se referindo à profecia das setenta semanas.
As setenta semanas, ou 490 anos, estavam “determinadas” ou “decretadas” para os judeus e Jerusalém (Dn 9:24). O verbo hebraico subjacente é chathak. Embora esse verbo seja utilizado somente uma vez nas Escrituras, seu significado pode ser compreendido a partir de outras fontes hebraicas.[40] O conhecido dicionário hebraico-inglês de Gesenius estabelece que o significado apropriado do termo é “cortar”, ou “dividir”.[41]
A partir dessa retrospectiva, os comentários de Gabriel são muito reveladores. Ele diz a Daniel que os 490 anos devem ser cortados – ou separados – do período maior de 2.300 anos. Como ponto inicial dos 490 anos, Gabriel refere-se à ordem “para restaurar e para edificar Jerusalém” (Dn 9:25), o que ocorreu em 457 a.C., o sétimo ano do reinado de Artaxerxes (ver capítulo 4 deste livro).[42]
Os 490 anos finalizaram em 34 d.C. Ao separarmos 490 anos dos 2.300 anos, restam ainda 1.810 anos. Uma vez que os 2.300 anos deveriam se estender 1.810 anos para além do ano 34 d.C., concluímos que devem alcançar o ano 1844.[43]
b. Procurando uma compreensão mais plena do ministério de Cristo. Durante a porção inicial do século 19, muitos cristãos – incluindo batistas,
presbiterianos, metodistas, luteranos, anglicanos, episcopais, congregacionalistas e discípulos de Cristo – dedicaram estudo intensivo às profecias de Daniel 8.[44] Todos esses estudiosos da Bíblia aguardavam que algum acontecimento muito significativo ocorresse ao final dos 2.300 anos. Dependendo de sua compreensão do poder do chifre pequeno e do santuário, eles esperavam que esse período profético terminasse com a purificação da igreja, com a libertação da Palestina e de Jerusalém, com o retorno dos judeus, com a queda do poder turco ou muçulmano, com a destruição do papado, com a restauração do verdadeiro culto, com o início do milênio terrestre, com o dia do juízo, com a purificação da Terra pelo fogo, ou com o segundo advento.[45]
Nenhuma dessas predições se materializou, e todos os que nelas criam se desapontaram. A profundidade de seu desapontamento ocorreu na proporção da natureza do evento predito. Obviamente, o desapontamento daqueles que aguardavam o retorno de Cristo em 1844 foi mais traumático do que o daqueles que aguardavam o retorno dos judeus para a Palestina.[46]
Como resultado de seu desapontamento, muitos desistiram de estudar as profecias ou abandonaram o método historicista de interpretação das profecias, o qual os havia conduzido àquelas conclusões.[47] Alguns, entretanto, prosseguiram no estudo das profecias e do assunto do santuário com muita oração e dedicação, focalizando o ministério sacerdotal de Cristo no santuário celestial, em seu favor. Novos e preciosos vislumbres desse ministério recompensaram seus esforços. Descobriram que a histórica fé profética da igreja apostólica e da Reforma ainda era válida. O cálculo do período profético estava correto. Os 2.300 anos haviam findado em 1844. Seu equívoco – e o de todos os intérpretes daquela oportunidade – foi quanto a sua compreensão de qual evento haveria de ocorrer no fim daquele período profético. Nova luz no tocante ao ministério de Cristo no santuário converteu o desapontamento daquelas pessoas em esperança e alegria.[48]
Seus estudos dos ensinamentos bíblicos no tocante ao santuário revelaram que em 1844 Cristo veio ao Ancião de Dias e começou a fase final de seu sumo-sacerdócio no santuário celestial. Esse ministério representava o antítipo do Dia da Expiação com sua purificação do santuário, que Daniel 7 retrata como o juízo investigativo do período pré-advento.
Essa nova visão do ministério celestial de Cristo “não representa um afastamento da fé cristã histórica. Ela é, na verdade, o complemento lógico e a consumação inevitável dessa fé. É simplesmente o aparecimento e o cumprimento, nos últimos dias, da ênfase profetizada que caracterizaria o evangelho eterno [...] no segmento final de seu testemunho ao mundo”.[49]
A relação com o grande conflito
As profecias de Daniel 7 e 8 expõem as perspectivas mais amplas do resultado final da grande controvérsia entre Cristo e Satanás.
A vindicação do caráter de Deus. Através das atividades do chifre pequeno, Satanás tem tentado desafiar a autoridade de Deus. Os atos desse poder têm lançado opróbrio e pisoteado o santuário celestial, o centro do governo de Deus. As visões de Daniel indicam um julgamento pré-advento no qual Deus emitirá o veredito de condenação sobre o chifre pequeno, e, dessa forma, sobre o próprio Satanás. À luz do Calvário, todos os desafios de Satanás serão refutados. Todos chegarão a entender e concordar que Deus é justo; que Ele não tem responsabilidade pelo problema do pecado. Seu caráter emergirá inatacável e seu governo de amor será reafirmado.
A vindicação do povo de Deus. Ao mesmo tempo que o julgamento trará condenação ao poder apóstata do chifre pequeno, ele também é empreendido para fazer “justiça aos santos do Altíssimo” (Dn 7:22). Efetivamente, esse julgamento não apenas vindicará Deus perante o universo, mas também seu povo. Embora os santos possam ter sido desprezados e perseguidos em virtude de sua fé em Cristo, conforme o foram ao longo dos séculos, o julgamento recoloca as coisas nos devidos lugares. O povo de Deus concretizará a promessa de Cristo: “Portanto, todo aquele que me confessar diante dos homens, também Eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus” (Mt 10:32; cf. Lc 12:8, 9; Ap 3:5).
Julgamento e salvação. Porventura o juízo investigativo ameaça a salvação daqueles que creem em Cristo Jesus? De modo algum. Crentes genuínos vivem em união com Cristo, confiando nele como intercessor (Rm 8:34). Sua segurança é a promessa de que “temos Advogadojunto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo” (1Jo 2:1).
Por que, então, um julgamento investigativo antes do Advento? Ele não ocorre para benefício da Divindade. Destina-se, antes, primariamente ao benefício do universo, servindo para responder às acusações de Satanás e para garantir aos seres não caídos que Deus permitirá a entrada em seu reino tão somente daqueles que verdadeiramente se converteram. Dessa forma, Deus abre os livros de registro a fim de permitir uma inspeção imparcial (Dn 7:9, 10).
Os seres humanos pertencem a uma dentre três classes: (1) os ímpios, que rejeitam a autoridade de Deus; (2) crentes genuínos que, mediante fé e confiança nos méritos de Cristo, vivem em obediência à lei de Deus; e (3) aqueles que parecem ser cristãos genuínos mas não o são.
Os seres não caídos conseguem discernir facilmente a primeira dessas categorias. Mas [...] quem é um crente genuíno e quem não o é? Ambos os grupos têm seus nomes escritos no livro da vida, o qual contém os nomes de todos os que alguma vez entraram no serviço de Deus (Lc 10:20; Fp 4:3; Dn 12:1; Ap 21:27). A própria igreja tem em suas fileiras crentes genuínos e crentes falsos, o trigo junto ao joio (Mt 13:28-30).
As criaturas não caídas de Deus não são seres oniscientes; não conseguem ler os corações. “Assim se faz necessário um julgamento – antes da segunda vinda de Cristo – a fim de separar o verdadeiro do falso e para demonstrar ao universo expectante a justiça de Deus em salvar o crente sincero. A questão tem que ver com Deus e o universo, não com Deus e o verdadeiro filho seu. É necessária a abertura dos livros de registro, a exposição daqueles que professam fé e cujos nomes foram anotados no livro da vida.[50]
Cristo retratou esse julgamento por meio da parábola dos convidados à ceia de casamento que respondem ao generoso convite do evangelho. Pelo fato de nem todos que decidem ser cristãos serem efetivamente genuínos discípulos, o rei reconhece a necessidade de inspecionar os convidados e ver quem possui os trajes nupciais. “Pela veste nupcial da parábola é representado o caráter puro e imaculado, que os verdadeiros seguidores de Cristo possuirão. Foi dado à igreja ‘que se vestisse de linho fino, puro e resplandecente’ (Ap 19:8), ‘sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante’ (Ef 5:27). O linho fino, diz a Escritura, ‘são as justiças dos santos’ (Ap 19:8). A justiça de Cristo e seu caráter imaculado, é, pela fé, comunicada a todos os que o aceitam como Salvador pessoal.”[51]
Quando o rei inspecionar os convidados, somente aqueles que estiverem vestidos das vestimentas da justiça de Cristo, tão graciosamente oferecidas no convite evangélico, serão aceitos como genuínos crentes. Aqueles que professam ser seguidores de Deus mas vivem em desobediência e não estão cobertos pela justiça de Cristo, serão apagados do livro da vida (Êx 32:33).
O conceito de um juízo investigativo de todos aqueles que professam fé em Cristo não contradiz o ensino bíblico da salvação unicamente pela fé por meio da graça. Paulo sabia que um dia ele próprio enfrentaria o juízo. Diante desse fato, expressou o desejo de “ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé” (Fp 3:9). Todos os que estão unidos a Cristo possuem a certeza da salvação. Na fase pré-advento do último julgamento, os crentes genuínos, aqueles que possuem uma relação salvadora com Cristo, recebem a afirmação perante o universo não caído.
Contudo, Cristo não pode assegurar a salvação àqueles que apenas professam ser cristãos com base nas boas obras que praticaram (Mt 7:21-23). Os registros celestiais, portanto, são mais do que apenas uma ferramenta que serve para separar os genuínos dos falsos. Também representam o alicerce para confirmação dos crentes genuínos diante dos anjos.
“Longe de roubar ao crente de sua certeza em Cristo, a doutrina do santuário a sustenta. Ela ilustra e esclarece à mente do seguidor de Cristo o plano da salvação. Seu coração penitente se regozija ao perceber a realidade da morte substitutiva de Cristo em favor de seus pecados, conforme prefigurada nos sacrifícios. Adicionalmente, sua fé alcança as alturas a fim de encontrar significado em um Cristo vivo, que é o seu advogado sacerdotal na própria presença santa de Deus.”[52]
Tempo de estarmos prontos. Deus deseja que as boas-novas desse último ministério salvador de Cristo sejam levadas a todo o mundo antes do retorno de Jesus. Nessa mensagem, o ponto central é o evangelho eterno, o qual deve ser pregado em um sentido de urgência, pois “é chegada a hora do seu juízo” (Ap14:7). Esse chamado adverte o mundo de que o julgamento de Deus está ocorrendo exatamente agora.
Estamos vivendo hoje no grande dia antitípico da expiação. Tal como os israelitas eram convocados para afligir a alma naquele dia (Lv 23:27), assim Deus chama a todo o seu povo para experimentar arrependimento de todo o coração. Todos os que desejarem conservar seu nome no livro da vida devem ajustar suas contas com Deus e com seus semelhantes durante este tempo do julgamento de Deus (Ap 14:7).
O trabalho de Cristo como sumo sacerdote se aproxima do fim. Os anos da provação humana[53] estão se escoando. Ninguém sabe em que momento a voz de Deus proclamará: “Está feito!” “Estai de sobreaviso, vigiai e orai; porque não sabeis quando será o tempo” (Mc 13:33).
Embora vivamos no soleníssimo tempo do dia antitípico da expiação, não necessitamos temer. Jesus Cristo, em sua dupla capacitação de sacrifício e sacerdote, ministra em nosso favor no santuário celestial. Uma vez que temos “a Jesus, o Filho de Deus, como grande sumo sacerdote que penetrou os céus, conservemos firmes a nossa confissão. Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi Ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado. Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna” (Hb 4:14-16).