Crença 27 · Doutrina: Últimos Eventos
O Milênio e o Fim do Pecado
Aparência da leitura
Toque em uma citação bíblica para ler seus versículos e em um número entre colchetes para ver a referência.
O Milênio e o Fim do Pecado
O milênio é o reinado de mil anos de Cristo com seus santos no Céu, entre a primeira e a segunda ressurreições. Durante esse tempo, serão julgados os ímpios mortos, a Terra estará completamente desolada, sem habitantes humanos com vida, mas ocupada por Satanás e seus anjos. No fim desse período, Cristo com seus santos e a Cidade Santa descerão do Céu à Terra. Os ímpios mortos serão então ressuscitados e, com Satanás e seus anjos, cercarão a cidade; mas fogo de Deus os consumirá e purificará a Terra. O universo ficará assim eternamente livre do pecado e dos pecadores (Ap 20; 1Co 6:2, 3; Jr 4:23-26; Ap 21:1-5; Ml 4:1; Ez 28:18, 19).
O Milênio e o Fim do Pecado
Ao longo da história, existiram aqueles que exageraram eloquentemente a respeito dos horrores do inferno, explorando os temores das pessoas na tentativa de conduzi-las à adoração de Deus. Mas que espécie de deus retratam essas pessoas?
De que modo extinguirá Deus finalmente o mal? Que acontecerá com Satanás? O que impedirá que o mal torne algum dia a erguer sua horrorosa feição? De que modo pode um Deus justo ser também amável?
Eventos do começo do milênio
Durante o milênio – o período de mil anos do qual fala o vigésimo capítulo de Apocalipse – a influência de Satanás sobre a Terra será restrita, e Cristo estará reinando com os santos (Ap 20:1-4).
O segundo advento. Os capítulos 19 e 20 de Apocalipse constituem um só conjunto; não há quebra de sequência entre ambos. Descrevem a vinda de Cristo (Ap 19:11-21) e prosseguem imediatamente com o milênio, sendo que essa sequência indica que o milênio começará por ocasião do retorno de Cristo.
O Apocalipse representa os três poderes que reúnem as nações do mundo com o objetivo de opor-se à obra e ao povo de Cristo, imediatamente antes do segundo advento, como sendo o dragão, a besta e o falso profeta (Ap 16:13). Quando “a besta e os reis da Terra, com os seus exércitos” se ajuntam para fazer guerra contra Cristo por ocasião de seu retorno, a besta e o falso profeta são destruídos (Ap 19:19, 20). O que segue em Apocalipse 20 – o capítulo do milênio – refere-se ao terceiro membro da tríade demoníaca, o dragão. Ele é aprisionado e lançado no poço do abismo, onde permanece durante os mil anos.[1]
Conforme vimos no capítulo 25, é mediante o segundo advento de Cristo, quando os reinos deste mundo são destruídos, que Deus estabelece o seu reino de glória – um reino que persistirá para sempre (Dn 2:44). Será então que seu povo começará a reinar.
A primeira ressurreição. No segundo advento, ocorre a primeira ressurreição. Os justos, os “benditos e santos”, erguem-se dos túmulos – “sobre esses a segunda morte não tem autoridade; pelo contrário, serão sacerdotes de Deus e de Cristo e reinarão com Ele os mil anos” (Ap 20:6; ver capítulo 26 deste livro).
Os justos vão para o Céu. Após a ressurreição dos justos mortos, estes e os justos vivos são reunidos “para o encontro do Senhor nos ares” (1Ts 4:17). Então Jesus cumprirá a promessa que fez imediatamente antes de deixar este mundo: “Vou preparar- vos lugar. E, quando Eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde Eu estou, estejais vós também” (Jo 14:2, 3). Jesus descreve o lugar para onde conduzirá seus seguidores como a “casa de meu Pai”, onde existem “muitas moradas” ou lugares de habitação (Jo 14:2). Aqui, Jesus se refere à Nova Jerusalém, a qual não virá à Terra até o fim do milênio. Assim, no segundo advento, quando os justos se encontram com o Senhor “nos ares”, seu destino é o Céu – e não a Terra que acabaram de deixar.[2] Cristo não estabelecerá seu reino de glória na Terra nessa oportunidade. Ele o fará somente no final do milênio.
Os inimigos de Cristo são mortos. Cristo comparou o seu retorno com aquilo que aconteceu por ocasião do dilúvio e na destruição de Sodoma e Gomorra (Mt 24:37-39; Lc 17:28-30). Essa comparação revela dois pontos: em primeiro lugar, que a destruição atingiu os ímpios de surpresa; em segundo, que aquilo que sobreveio foi efetivamente destruição – o dilúvio veio “e os levou a todos” (Mt 24:39). O fogo e enxofre que desceu sobre Sodoma e Gomorra “e destruiu todos” (Lc 17:29; ver também Mt 24:39). Em seu segundo advento, Cristo descerá dos céus com seus exércitos, na qualidade de
cavaleiro que monta um cavalo branco, e cujo nome será REI DOS REIS E SENHOR DOS SENHORES. Virá para destruir as nações rebeldes da Terra. Depois da destruição da besta e do falso profeta, os “restantes” dos seguidores de Satanás morrerão e não haverá sobreviventes, pois todos serão “mortos com a espada que saía da boca daquele que estava montado no cavalo. E todas as aves se fartaram das suas carnes” (Ap 19:21).[3]
Descrevendo essa cena, dizem as Escrituras: “O SENHOR sai do seu lugar, para castigar a iniquidade dos moradores da Terra; a terra descobrirá o sangue que embebeu e já não encobrirá aqueles que foram mortos” (Is 26:21).
A Terra torna-se desolada. Uma vez que os salvos ascendem para a companhia do Senhor e os ímpios são destruídos mediante o seu aparecimento, a Terra permanecerá durante algum tempo sem habitantes humanos. As Escrituras indicam essa situação. O profeta Jeremias disse: “Olhei para a Terra, e ei-la sem forma e vazia; para os céus, e não tinham luz. Olhei para os montes, e eis que tremiam, e todos os outeiros estremeciam. Olhei, e eis que não havia homem nenhum, e todas as aves dos céus haviam fugido” (Jr 4:23-25). Jeremias utiliza a terminologia encontrada em Gênesis 1:2, “sem forma e vazia”, indicando que a Terra se tornará tão caótica como o era ao começo da criação.
Satanás é preso. Os eventos que ocorrem nessa oportunidade foram prefigurados no ritual do bode emissário, no Dia da Expiação, nos serviços do santuário de Israel. No Dia da Expiação, o sumo sacerdote purificava o santuário mediante o sangue expiatório do bode do Senhor. Somente depois que a expiação se achava completa é que o ritual envolvia Azazel, o bode que simbolizava Satanás (ver capítulo 24). Colocando as mãos sobre a cabeça desse bode, o sumo sacerdote confessava “todas as iniquidades dos filhos de Israel, todas as suas transgressões e todos os seus pecados”, colocando-os sobre a cabeça do bode (Lv 16:21). Depois, o bode era enviado para o deserto, para a “terra solitária” (Lv 16:22).
Similarmente, Cristo, no santuário celestial, tem ministrado os benefícios de sua completa expiação ao seu povo; em seu retorno, Ele os redimirá e lhes dará a vida eterna. Quando Ele houver completado sua obra de redenção e purificação do santuário celestial, colocará os pecados de seu povo sobre Satanás, o originador e instigador do mal. De nenhuma forma se pode dizer que é Satanás quem efetua a expiação pelos pecados dos crentes – Cristo realizou essa obra por completo. Mas Satanás deve ser responsabilizado por todos os pecados que ele levou os salvos a praticarem. Assim como o bode emissário era conduzido ao deserto por um “homem à disposição para isso”, Deus banirá Satanás para a Terra desolada e desabitada (ver capítulo 24 deste livro).[4]
A visão que João teve do milênio descreve em traços vívidos o banimento de Satanás. Ele viu que no começo dos mil anos, “o dragão, a antiga serpente, que é o diabo, Satanás”, foi posto em cadeias e confinado ao “abismo” (Ap 20:2, 3). Isso retrata simbolicamente a cessação temporária das atividades de perseguição e engano de Santanás, “para que não mais enganasse as nações até se completarem os mil anos” (Ap 20:3).
O termo utilizado por João – abismo, do grego abyssos – descreve apropriadamente as condições da Terra naquela oportunidade.[5] Bombardeada pelas sete últimas pragas que antecedem imediatamente a volta de Cristo (ver particularmente Ap 16:18-21) e coberta com os cadáveres dos ímpios, a Terra será um lugar da mais completa desolação.
Confinado à Terra, Satanás estará “preso” por meio de uma cadeia de circunstâncias. Uma vez que sobre a Terra não existe qualquer vida humana, Satanás não tem a quem tentar ou perseguir. Ele está preso no sentido de não ter nada para fazer.
Eventos durante o milênio
Cristo no Céu com os remidos. Em sua segunda vinda, Cristo conduz seus seguidores para o Céu, para os lugares de morada que Ele lhes preparou na Nova Jerusalém. Tal como Moisés e os israelitas, os redimidos, possuídos de imensa gratidão, entoarão um cântico de livramento – “o cântico de Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro, dizendo: Grandes e admiráveis são as tuas obras, Senhor Deus, Todo-Poderoso! Justos e verdadeiros são os teus caminhos, ó Rei das nações!” (Ap 15:3).
Os santos reinam com Cristo. É durante o milênio que Cristo cumprirá a promessa de conceder aos vencedores o “poder sobre as nações” (Ap 2:26). Daniel viu que, após a destruição dos inimigos de Deus, “o reino, e o domínio, e a majestade dos reinos debaixo de todo o Céu serão dados ao povo dos santos do Altíssimo” (Dn 7:27). Aqueles que são ressuscitados por Cristo na primeira ressurreição reinarão com Ele durante os mil anos (Ap 20:4).
Mas em que sentido poderão os santos reinar, se estão no Céu e todos os ímpios estão mortos? Seu reinado consistirá no envolvimento em uma importante fase do governo de Cristo.[6]
O julgamento dos maus. João viu que, durante o milênio, os santos estariam envolvidos em julgamento; ele contemplou “tronos, e nestes sentaram-se aqueles aos quais foi dada autoridade de julgar” (Ap 20:4). Essa é a ocasião do julgamento de Satanás e de seus anjos, mencionada nas Escrituras (2Pe 2:4; Jd 6). É a ocasião mencionada por Paulo, de que os santos haverão de julgar o mundo e mesmo os anjos (1Co 6:2, 3).[7]
O julgamento que ocorre durante o milênio não decide quem está salvo ou perdido. Essa decisão é tomada por Deus antes do segundo advento; todos aqueles que não participarem da primeira ressurreição ou não foram transformados estarão perdidos. O julgamento de que os santos participam serve ao propósito de responder qualquer questão que os justos possam ter em relação às causas que levaram outros a se perderem. Deus deseja que aqueles aos quais foi dada a vida eterna tenham plena confiança em sua direção, de modo que Ele lhes revelará as operações de sua misericórdia e justiça.
Imagine que você esteja no Céu e ali não se encontre um de seus familiares, alguém que você tinha “certeza” de que ali estaria. Tal situação poderia levar ao questionamento da justiça de Deus – e esta espécie de dúvida jaz à base de todo o pecado. A fim de eliminar para sempre a possibilidade de tais dúvidas – e para garantir que o pecado nunca mais se erguerá – Deus proverá as respostas a todas as perguntas desse tipo durante a fase revisora do julgamento, que acontecerá no milênio.
Nessa tarefa, os remidos desempenharão um papel crucial na grande controvérsia entre o bem e o mal. “Eles confirmarão, para sua eterna satisfação, quão sincera e pacientemente Deus se ocupou dos pecadoresperdidos. Perceberão quão negligente e obstinadamente os pecadores des-prezaram e rejeitaram seu amor. Descobrirão que mesmo pecadores aparentemente contritos acariciaram secretamente o medonho egoísmo em vez de aceitar o sistema de valores de seu Senhor e Salvador.”[8]
Tempo de reflexão para Satanás. Durante o milênio, Satanás sofrerá intensamente. Confinado, junto com seus anjos, à Terra desolada, não mais poderá desenvolver os enganos que haviam lhe ocupado constantemente o tempo. É obrigado a contemplar os resultados de sua rebelião contra Deus e a sagrada lei; necessita ver agora o papel que desempenhou na grande controvérsia entre o bem e o mal. Pode olhar ao futuro tão somente com temor diante da terrível penalidade que deverá sofrer em virtude de todo o mal pelo qual é responsável.
Eventos do final do milênio
No final do milênio, “os restantes dos mortos” – os ímpios – serão ressuscitados, libertando assim a Satanás da inatividade que o prendera (Ap 20:5, 7). Enganando uma vez mais os ímpios, ele os conduz em ataque contra “o acampamento dos santos e a cidade querida [a Nova Jerusalém]” (Ap 20:9), a qual, junto com Cristo, terá descido do Céu nessa oportunidade.[9]
Cristo, os santos e a cidade descem. Cristo desce novamente à Terra, com os santos e a Nova Jerusalém, tendo em vista dois propósitos. Porá término à grande controvérsia ao executar as decisões do julgamento ocorrido durante o milênio, e purificará e renovará a Terra, de modo que possa aqui estabelecer seu reino eterno. Então, em seu mais amplo sentido, “o SENHOR será rei sobre toda a Terra” (Zc 14:9).
A ressurreição da condenação. Chega, então, o momento em que se cumprirá plenamente a promessa de Cristo de que “todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz” (Jo 5:28). Em seu segundo advento,Cristo ressuscitara os justos mortos, naquela que é a primeira ressurreição, ou ressurreição da vida. Depois do milênio, ocorre a outra ressurreição mencionada por Cristo, a “ressurreição da condenação” (Jo 5:29). O Apocalipse também faz referência a essa ressurreição: “Os restantes dos mortos [aqueles que não participaram da primeira ressurreição] não reviveram até que se completassem os mil anos” (Ap 20:5).
Termina o cativeiro de Satanás. A ressurreição dos ímpios no final do milênio liberta Satanás de seu cativeiro durante “pouco tempo” (Ap 20:3). Em sua última tentativa de desafio ao governo de Deus, ele “sairá a seduzir as nações que há nos quatro cantos da Terra” (Ap 20:8). Uma vez que os ímpios ressuscitaram no mesmo espírito rebelde que possuíam ao morrer, a tarefa de Satanás não será difícil.
O ataque à cidade. Em seu último engano, Satanás procurará inspirar nos ímpios a esperança de capturar o reino de Deus pela força. Reunindo todas as nações do mundo, ele as conduz contra a cidade santa (Ap 20:8, 9).[10] “Os ímpios que obstinadamente se recusaram a entrar na cidade de Deus por intermédio dos méritos da expiação sacrifical de Cristo, determinam-se então a conseguir entrada e domínio sitiando-a para tomá-la de assalto.”[11]
O fato de que os ímpios, tão logo recebem novamente de Deus a vida, volvem-se contra Ele e tentam derrubar seu reino confirma que a decisão que Deus tomou a respeito deles está correta. Dessa forma, o nome e o caráter divinos, que Satanás tentou deslustrar, serão plenamente vindicados diante de todos.[12]
O grande trono branco do julgamento. João indica que quando os inimigos de Deus tiverem cercado a cidade santa e se acharem prontos para o ataque, Deus estabelecerá seu grande trono branco. No momento em que toda a raça humana se encontra em volta do trono – alguns seguros dentro da cidade, outros fora, horrorizados na presença do Juiz – Deus executa a última fase de seu juízo. Foi a respeito dessa ocasião que Jesus falou, dizendo: “Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes, no reino de Deus, Abraão, Isaque, Jacó e todos os profetas, mas vós lançados fora” (Lc 13:28).
Para que seja levada a efeito essa fase executiva do juízo de Deus, os livros são abertos. “Então, se abriram os livros. Ainda outro livro, o livro da vida, foi aberto. E os mortos foram julgados, segundo as suas obras, conforme o que se achava escrito nos livros” (Ap 20:12). Então, Deus pronuncia a sentença de condenação.
Por que Deus tira as pessoas das sepulturas tão somente para extinguir-lhes a vida outra vez? Durante o milênio, os remidos tiveram a oportunidade de examinar a justiça do tratamento divino em relação a todas as criaturas inteligentes do universo. Então, a perda de todos os condenados – inclusive Satanás e seus anjos – confirmará a justiça dos caminhos de Deus.
Foi com relação a esse grande trono branco que Paulo escreveu, e cuja profecia se cumpre agora: “Todos compareceremos perante o tribunal de Deus” (Rm 14:10). Ali, todas as criaturas – não caídas e caídas, salvas e perdidas – dobrarão os joelhos e confessarão que Jesus Cristo é Senhor (Fp 2:10, 11; cf. Is 45:22, 23). Então a questão da justiça de Deus terá sido resolvida para sempre. Aqueles que herdarem a vida eterna possuirão, em relação a Ele, uma fé inabalável. Nunca mais o universo e seus habitantes serão postos sob o alcance do pecado.
Destruição de Satanás e dos pecadores. Imediatamente após ser pronunciada a sentença, Satanás, seus anjos e seus seguidores humanos receberão a punição devida. Eles sofrerão a morte eterna. “Desceu [...] fogo do céu e os consumiu” (Ap 20:9). A própria superfície da Terra, fora da cidade santa, parece derreter-se, tornando-se um vasto lago de fogo para “juízo e destruição dos homens ímpios” (2Pe 3:7). O “dia da vingança do SENHOR” (Is 34:8), durante o qual Ele executará o seu “estranho ato” (Is 28:21) de destruição dos inimigos, finalmente chegou. João complementa: “E, se alguém não foi achado inscrito no livro da vida, esse foi lançado para dentro do lago de fogo” (Ap 20:15). O diabo e seus associados sofrem a mesma sorte (Ap 20:10).
Todo o contexto bíblico deixa claro que esta “segunda morte” (Ap 21:8) que os ímpios sofrem significa a sua total destruição. O que dizer, então, do conceito de um inferno que arde eternamente? Estudo cuidadoso mostra que a Bíblia não ensina a existência de tal inferno ou tormento.
1. Inferno. Biblicamente, “inferno é o lugar e estado de punição e destruição, pelo fogo eterno que ocorre na segunda morte, daqueles que rejeitaram a Deus e a oferta de salvação em Cristo Jesus”.[13]
Várias versões bíblicas utilizam a palavra “inferno” para traduzir o termo hebraico sheol e seu correspondente grego hades. Esses termos em geral se referem à sepultura onde os mortos – tanto justos quanto ímpios – aguardam, em estado de inconsciência, a ressurreição (ver capítulo 26 deste livro). Uma vez que o conceito atual de inferno difere muito daquele implicado nos termos hebraico e grego, muitas versões modernas da Bíblia simplesmente evitam a palavra “inferno” e transliteram os termos originais, sheol e hades.
Em contraste, o termo grego geena, que o Novo Testamento igualmente traduz como “inferno”, denota um lugar de punição dos impenitentes pelo fogo. Portanto, na Bíblia “inferno” nem sempre quer dizer a mesma coisa – e a incapacidade em distinguir isso tem conduzido a muita confusão.
Geena é derivado do hebraico Ge Hinnom, “vale de Hinom” – uma garganta existente ao lado sul de Jerusalém. Nesse lugar, o povo de Israel havia celebrado o rito pagão de oferecer seus filhos, como holocausto, a Moloque (2Cr 28:3; 33:1, 6). Jeremias predisse que, em virtude dos pecados do povo, o Senhor converteria o vale em um “Vale de Matança”, onde os cadáveres dos israelitas seriam sepultados até que não mais houvesse lugar para fazê-lo. Os cadáveres restantes serviriam de “pasto às aves” (Jr 7:32, 33; 19:6; Is 30:33). A profecia de Jeremias sem dúvida levou os israelitas a verem Ge Hinnom como um lugar de julgamento dos maus, um lugar de repugnância, punição e vergonha.[14] Tradições rabínicas posteriores consideram o vale como lugar para a queima de carcaças e lixo.
Jesus utilizou os fogos de Hinom como representação do fogo do inferno (ver, por exemplo, Mt 5:22; 18:9). Assim, os fogos de Hinom simbolizavam o fogo consumidor do juízo final. Ele declarou que essa experiência ocorreria depois da morte (Lc 12:5), e que o inferno destruiria tanto o corpo quanto a alma (Mt 10:28).
Qual é a natureza do fogo do inferno? Porventura queimarão as pessoas para sempre?
2. A sorte do ímpios. De acordo com as Escrituras, Deus promete vida eterna somente aos justos. O salário do pecado é morte, e não vida eterna no inferno (Rm 6:23).
As Escrituras ensinam que os ímpios serão “exterminados” (Sl 37:9, 34); que eles perecerão (Sl 37:20; 68:2). Não permanecerão em estado de consciência para sempre, mas serão abrasados (Ml 4:1; Mt 13:30, 40; 2Pe 3:10). Serão destruídos (Sl 145:20; 2Ts 1:9; Hb 2:14), ou consumidos (Sl 104:35).
3. Punição eterna. Falando da punição dos ímpios, o Novo Testamento utiliza os termos “eterno” ou “para sempre”. Esses termos traduzem a palavra grega aionios, e aplicam-se tanto a Deus quanto ao homem. Para evitar mal-entendidos, devemos recordar que aionios é um termo relativo; seu significado é determinado pelo objeto que ele modifica. Assim, quando as Escrituras utilizam aionios em relação a Deus, isto significa que Ele possui existência infinita, pois Deus é imortal. Quando, porém, a palavra é utilizada em relação a seres humanos mortais ou a coisas perecíveis, seu sentido se restringe ao período em que a pessoa ou coisa prossegue existindo. Judas 7, por exemplo, diz que Sodoma e Gomorra “são postas para exemplo de fogo eterno, sofrendo punição”. É evidente que estas cidades não estão queimando até hoje. Pedro disse que tal fogo reduziu aquelas cidades a cinzas, condenando-as à destruição (2Pe 2:6). O fogo “eterno” ardeu até que nada mais houvesse para queimar, extinguindo-se então (Jr 17:27; 2Cr 36:19).
Similarmente, quando Cristo destina os maus para o “fogo eterno” (Mt 25:41), esse fogo que consumirá os ímpios será “inextinguível” (Mt 3:12). Somente apagará quando nada mais houver para ser queimado.[15]
Quando Cristo se referiu ao “castigo eterno” (Mt 25:46), não estava querendo dizer “ato de castigar eternamente”. O significado era que a “vida eterna [que os justos desfrutarão] continuará através dos séculos intérminos da eternidade; e o castigo [sofrido pelos ímpios] será também eterno – não duração eterna de sofrimento consciente, mas castigo completo e final. O fim dos que assim sofrem é a segunda morte. Essa morte será eterna, e dela não haverá nem poderá haver ressurreição.”[16]
Quando a Bíblia fala de “eterna redenção” (Hb 9:12) e “juízo eterno” (Hb 6:2), ela se refere aos eternos resultados de redenção e julgamento, e não a um processo interminável de redimir e julgar. Da mesma forma, quando fala de punição eterna, está falando dos resultados e não do processo. A morte experimentada pelos ímpios é final e eterna.
4. Atormentados para sempre e sempre. A Escritura utiliza também a expressão “pelos séculos dos séculos” (Ap 14:11; 19:3; 20:10), o que tem contribuído para a conclusão de que o castigo de Satanás e dos ímpios perdurará ao longo de toda a eternidade. Entretanto, assim como ocorre com “eterno”, o objeto modificado pela expressão “pelos séculos dos séculos” ou “para sempre”, determina o significado da própria expressão. Quando ela se associa a Deus, seu significado é absoluto, pois Deus é imortal; associada aos seres humanos mortais, seu significado é limitado.
A descrição que as Escrituras fazem da divina punição de Edom constitui bom exemplo do uso da expressão. Isaías diz que Deus haveria de transformar aquele país em piche fervente, o qual “nem de dia nem de noite se apagará”, e que a fumaça desta queima “subirá para sempre”. De geração em geração ele jazeria deserto; ninguém passaria por ali “para todo o sempre”. Edom foi destruído, mas não mais se encontra ardendo. O “para sempre” durou até que a destruição foi completada.
Ao longo de toda a Escritura, transparece claramente que o “para sempre” possui limites. O Antigo Testamento diz que um escravo poderia servir a seu senhor “para sempre” (Êx 21:6), que o menino Samuel deveria morar no tabernáculo “para sempre” (1Sm 1:22) e que Jonas pensou que permaneceria no ventre do grande peixe “para sempre” (Jn 2:6). O Novo Testamento utiliza a expressão de modo similar; Paulo, por exemplo, aconselha Filemom a receber Onésimo “para sempre” (Fm 15). Em todos estes casos, “para sempre” refere-se a “enquanto a pessoa viver”.
O Salmo 92:7 diz que os maus serão destruídos para sempre. Profetizando a grande conflagração final, Malaquias disse: “Eis que vem o dia, e arde como fornalha; todos os soberbos e todos os que cometem perversidades serão como o restolho; o dia que vem os abrasará, diz o SENHOR dos Exércitos, de sorte que não lhes deixará nem raiz nem ramo” (Ml 4:1).
Uma vez que os ímpios – Satanás, anjos maus e pessoas impenitentes – são todos destruídos pelo fogo, tanto ramos quanto raízes, não mais haverá utilização adicional para a morte ou hades (ver capítulo 26 deste livro). Esses também serão destruídos eternamente por Deus (Ap 20:14).
Assim, a Bíblia deixa bem claro que eterna é a punição-resultado, e não a punição-processo. É isso que representa a segunda morte. Dessa morte não há ressurreição; seus resultados são eternos.
O arcebispo William Temple estava correto ao afirmar: “Uma coisa podemos afirmar com segurança: o tormento eterno deve ser eliminado. Se os homens não houvessem importado a noção grega e não bíblica da indestrutibilidade natural da alma do indivíduo, e então lessem o Novo Testamento com esta mensagem em mente, haveriam de obter deste [o Novo Testamento] a crença, não de um tormento eterno, mas de uma aniquilação. É o fogo que é chamado de ‘eterno’, não a vida lançada dentro dele.”[17]
Tendo sido executada completamente a penalidade determinada pela lei de Deus, acham-se satisfeitas as demandas da justiça. Novos céus e nova Terra proclamam a justiça do Senhor.
5. O princípio da punição. A morte é o resultado final do pecado. Como resultado do pecado, todos os que rejeitam a salvação oferecida por Deus morrerão eternamente. Contudo, alguns pecaram flagrante e demoniacamente, deleitando-se com os procedimentos que praticaram, levando outras pessoas ao sofrimento. Outros viveram uma existência pacífica e de relativo valor moral, sendo que sua maior culpa será o fato de haverem rejeitado a salvação que provém de Cristo. Seria justo que todos sofressem igual punição?
Cristo deixou claro este ponto: “Aquele servo, porém, que conheceu a vontade de seu senhor e não se aprontou, nem fez segundo a sua vontade será punido com muitos açoites. Aquele, porém, que não soube a vontade de seu senhor e fez coisas dignas de reprovação levará poucos açoites. Mas àquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e àquele a quem muito se confia, muito mais lhe pedirão” (Lc 12:47, 48).
Indubitavelmente, aqueles que mais se rebelaram contra Deus sofrerão mais do que aqueles que não o fizeram. Mas deveríamos entender seu sofrimento final em termos da “segunda morte” experimentada por Cristo na cruz. Ali, suportou Ele os pecados de todo o mundo. Foi a pavorosa separação de seu Pai, ocasionada pelo pecado, que lhe causou a maior agonia e sofrimento – uma angústia mental que está além de qualquer descrição. Assim ocorrerá com os pecadores perdidos. Eles colherão o que semearam, não apenas durante esta vida, como também em sua destruição final. Em presença de Deus, a culpa que sentirão em virtude dos pecados que cometeram lhes causará sofrimento e agonia indescritíveis. Quanto maior a culpa, tanto maior a agonia. Satanás, o instigador e promotor do pecado, sofrerá mais que todos.[18]
A purificação da Terra. Descrevendo o dia do Senhor, quando todo traço de pecado for extinto, Pedro diz: “Os céus passarão com estrepitoso estrondo, e os elementos se desfarão abrasados; também a Terra e as obras que nela existem serão atingidas” (2Pe 3:10).
O fogo que destrói os ímpios purifica a Terra da poluição do pecado. Das ruínas da Terra, Deus fará surgir “novo céu e nova Terra, pois o primeiro céu e a primeira Terra passaram” (Ap 21:1). Da Terra purificada, recriada – o lar eterno dos remidos, Deus banirá para sempre a tristeza, a dor e a morte (Ap 21:4). Finalmente será extinta a maldição trazida pelo pecado (Ap 22:3).
Em vista da vinda do dia do Senhor, no qual pecadores impenitentes e pecado serão destruídos, Pedro aconselha a todos: “Visto que todas essas coisas hão de ser assim desfeitas, deveis ser tais como os que vivem em santo procedimento e piedade.” Baseando sua esperança na promessa do retorno de Cristo, ele afirmou: “Nós [...] segundo a sua promessa, esperamos novos céus e nova Terra, nos quais habita justiça. Por essa razão, pois, amados, esperando estas coisas, empenhai-vos por ser achados por Ele em paz, sem mácula e irrepreensíveis” (2Pe 3:11, 13, 14).