Crença 23 · Doutrina: Vida Cristã
O Casamento e a Família
Aparência da leitura
Toque em uma citação bíblica para ler seus versículos e em um número entre colchetes para ver a referência.
O Casamento e a Família
O casamento foi divinamente estabelecido no Éden e confirmado por Jesus como união vitalícia entre um homem e uma mulher, em amoroso companheirismo. Para o cristão, o compromisso matrimonial é com Deus bem como com o cônjuge, e só deve ser assumido entre um homem e uma mulher que partilham da mesma fé. Mútuo amor, honra, respeito e responsabilidade constituem a estrutura dessa relação, a qual deve refletir o amor, a santidade, a intimidade e a constância da relação entre Cristo e sua igreja. No tocante ao divórcio, Jesus ensinou que a pessoa que se divorcia do cônjuge, a não ser por causa de fornicação, e se casa com outro, comete adultério. Conquanto algumas relações de família fiquem aquém do ideal, um homem e uma mulher que se dedicam inteiramente um ao outro em Cristo por meio do casamento, podem alcançar amorosa unidade por meio da orientação do Espírito e a instrução da igreja. Deus abençoa a família e deseja que seus membros ajudem um ao outro a alcançar completa maturidade. O aumento da intimidade familiar é uma das carcaterísticas da mensagem final do evangelho. Os pais devem educar os seus filhos a amar o Senhor e a obedecer-lhe. Por seu exemplo e suas palavras, devem ensinar-lhes que Cristo é um guia terno, amoroso e cuidadoso, que deseja que eles se tornem membros do seu corpo, a família de Deus, que é formada tanto por solteiros quanto por casados (Gn 2:18-25; Mt 19:3-9; Jo 2:1-11; 2Co 6:14; Ef 5:21-33; Mt 5:31, 32; Mc 10:11, 12; Lc 16:18; 1Co 7:10, 11; Êx 20:12; Ef 6:1-4; Dt 6:5-9; Pv 22:6; Ml 4:5, 6).
O Casamento e a Família
O lar representa a moldura primária para a restauração da imagem de Deus em homens e mulheres. Dentro do círculo familiar,pai, mãe e filhos podem se expressar plenamente, podendo cada um deles completar as necessidades dos demais no tocante a ter seu próprio lugar, ser amado e amar e desenvolver intimidade. Aqui se estabelece a identidade e se desenvolvem os sentimentos de valor pessoal. O lar é também o lugar em que, pela graça de Deus, os princípios do genuíno cristianismo são postos em prática, e seus valores são transmitidos de uma geração para a seguinte.
A família pode representar um lugar de grande felicidade. Pode, por outro lado, constituir o cenário de terríveis sofrimentos. A vida familiar harmoniosa demonstra os princípios do cristianismo verdadeiramente exemplificados na prática, revelando o caráter de Deus. Desgraçadamente, a manifestação dessas características é sobremodo rara nos lares modernos. Ao contrário, muitas famílias demonstram os pensamentos e intenções do coração humano egoísta – discussões, rebeldia, rivalidade, ira, indecência e mesmo crueldade. Entendamos, porém, que essas características não constituíam parte do plano original de Deus. Jesus disse: “Não foi assim desde o princípio” (Mt 19:8).
Desde o princípio
O sábado e o matrimônio representam dois dons concedidos originalmente por Deus à família humana. Foram destinados a produzir a alegria do repouso e dos familiares, independentes do tempo, lugar e cultura. O estabelecimento dessas duas instituições representou o coroamento da criação divina na Terra. São o ápice, o melhor dos dons excelentes que Deus concedeu à humanidade na criação. Ao estabelecer o sábado, Deus reservou ao ser humano o tempo necessário ao repouso e renovação, tempo de comunhão com Ele. Ao formar a primeira família, estabeleceu a unidade social básica da humanidade, dando-lhe um senso de pertinência e provendo-lhe a oportunidade de desenvolver pessoas habilitadas para o serviço a Deus e aos outros seres humanos.
Homem e mulher à imagem de Deus. Gênesis 1:26 e 27 descreve a divina criação dos seres humanos que deveriam habitar a Terra: “Também disse Deus: ‘Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. [...] Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” O termo homem é usado aqui (tanto em hebraico quanto em português) no sentido genérico, conforme ocorre mais de 500 vezes no Antigo Testamento. O termo inclui seres do sexo masculino e do sexo feminino. O texto deixa claro que não foi o caso de o homem ser criado à imagem de Deus e a mulher à imagem do homem.[1] Ao contrário, ambos foram criados à imagem de Deus.
Da mesma forma como Deus Pai, Deus Filho e o Espírito Santo são Deus, assim homem e mulher, juntos, constituem o “homem”. À semelhança da Divindade, ainda que ambos devam ser um, não desempenham a mesma função. São iguais no tocante ao ser, ou em valor, mas não são idênticos em pessoa (cf. Jo 10:30; 1Co 11:3). Suas características físicas são complementares, suas funções são cooperativas.
Ambos os gêneros são bons (Gn 1:31), e da mesma forma seus diferentes papéis. A família e o lar acham-se construídos sobre o fato da diferenciação sexual. Deus poderia haver propagado a vida sobre a Terra sem criar homem e mulher, conforme está demonstrado por meio da reprodução assexuada de algumas formas de vida animal. Entretanto, Deus fez “dois indivíduos, idênticos quanto à forma e características gerais, mas cada um deles contendo algo que faltava no outro e que serviria para complementá-lo”.[2] Se o mundo fosse constituído exclusivamente de representantes de um dos sexos, não seria completo. Verdadeira complementação somente pode ocorrer em uma sociedade que envolva tanto homens quanto mulheres. A igualdade não se acha em questão aqui, pois ambos são essenciais.
Durante seu primeiro dia, Adão, o primogênito e, portanto, a cabeça de toda a raça humana,[3] percebeu o seu caráter único – não havia outro ser semelhante a ele. “Para o homem, todavia, não se achava uma auxiliadora que lhe fosse idônea” (Gn 2:20). Deus demonstrou sensibilidade ante essa falta, pois disse: “Não é bom que o homem esteja só: far-lhe-ei uma auxiliadora, que lhe seja idônea” (Gn 2:18).
A palavra hebraica neged, traduzida como “comparável” ou “idônea”, é um nome que se relaciona com a preposição cujo significado é “estar diante, na frente de, em oposição, correspondendo a” alguém ou alguma coisa. Nesse caso, a pessoa que deveria estar diante de Adão visava a complementá-lo, correspondendo-lhe como contraparte. Foi assim que Deus “fez cair pesado sono sobre o homem, e este adormeceu; tomou uma das suas costelas e fechou o lugar com carne. E a costela que o Senhor Deus tomara ao homem, transformou-a numa mulher” (Gn 2:21, 22).[4]
Ao despertar, Adão reconheceu imediatamente o íntimo e estreito relacionamento que esse ato específico de criação tornara possível. Ele exclamou: “Esta, afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha carne; chamar-se-á varoa, porquanto do varão foi tomada” (Gn 2:23; cf. 1Co 11:8).
Matrimônio. A partir da diversidade entre homem e mulher, Deus trouxe ordem, unidade. Na primeira sexta-feira, celebrou Ele o primeiro casamento, unindo as duas criaturas, condensação de sua imagem, em uma só. O matrimônio se tornou o alicerce da família, o fundamento da própria sociedade, desde o início.
As Escrituras descrevem o casamento como um ato decisivo, tanto de separação quanto de união: “Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne” (Gn 2:24).
1. Deixar. Para o êxito do relacionamento matrimonial, é vital que os relacionamentos primários anteriores sejam “deixados”. O relacionamento matrimonial deve sobrepujar aquele que existe entre pais e filhos. Nesse sentido, quando alguém “deixa” o relacionamento com os pais, habilita-se à “união” com o cônjuge. Sem esse processo, não existe fundamento seguro para o matrimônio.
2. Unir-se. O termo hebraico traduzido por “unir-se” provém de uma palavra que significa “amarrar-se a, firmar, juntar, manter em união”. Como substantivo, pode ele também ser usado no sentido de “estar soldado” (Is 41:7). A intimidade e a força desse vínculo ilustram a natureza do vínculo do matrimônio. Qualquer tentativa para romper essa união, prejudicará os indivíduos tão intimamente vinculados. Que esse vínculo humano é muito estreito torna-se claro pelo fato de que o mesmo verbo é usado para representar o vínculo existente entre Deus e seu povo: “Ao SENHOR, teu Deus, temerás; a Ele servirás, a Ele te chegarás e, pelo seu nome, jurarás” (Dt 10:20).
3. Celebrar um concerto. Nas Escrituras, esse compromisso, essa promessa pela qual o casal se une inteiramente, é mencionado como um “concerto”, termo utilizado para os mais solenes e comprometedores acordos conhecidos na Palavra de Deus (Ml 2:14; Pv 2:16, 17). A relação existente entre esposo e esposa deve pautar-se pelo eterno concerto de Deus com seu povo, a igreja (Ef 5:21-33). O comprometimento de um com o outro toma como testemunha a fidelidade e a perseverança que caracterizam o concerto de Deus (Sl 89:34; Lm 3:23).
Deus e os amigos, parentes e vizinhos do casal testemunham o concerto que ambos fazem entre si. Esse concerto é ratificado no Céu. “O que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mt 19:6). O casal cristão compreende que, no casamento, ambos fizeram o concerto de se manterem fiéis um ao outro enquanto viverem.[5]
4. Tornar-se uma só carne. O ato de deixar (o lar paterno) e celebrar um concerto de unir-se (ao outro cônjuge) resulta em uma união tão profunda que não pode ser plenamente compreendida. Aqui encontramos a unidade em seu pleno sentido – os cônjuges andam juntos, sustentam-se mutuamente e compartilham de profunda intimidade. Em sua manifestação exterior, essa unidade se refere à união física do matrimônio. Além disso, porém, ela também se refere ao íntimo vínculo que se forma entre as mentes e emoções, e que envolve o lado físico desse relacionamento.
a. Andar juntos. Referindo-se ao relacionamento que mantém com seu povo, Deus pergunta: “Andarão dois juntos, se não estiverem de acordo?” (Am 3:3). Essa questão também é apropriada em relação àqueles que deverão se tornar uma só carne. Deus instruiu os israelitas a não estabelecerem vínculos de matrimônio com pessoas das nações vizinhas, “pois elas fariam desviar teus filhos de mim, para que servissem a outros deuses” (Dt 7:4; cf. Js 23:11-13). Quando os israelitas passaram a ignorar essas instruções, defrontaram-se com desastrosas consequências (Jz 14-16; 1Rs 11:1-10; Ed 9; 10).
Paulo reiterou esse princípio em termos bastante amplos: “Não vos ponhais em jugo desigual com os incrédulos; porquanto que sociedade pode haver entre a justiça e a iniquidade? Ou que comunhão, da luz com as trevas? Que harmonia, entre Cristo e o maligno? Ou que união, do crente com o incrédulo? Que ligação há entre o santuário de Deus e os ídolos? Porque nós somos santuário do Deus vivente” (2Co 6:14-16; cf. v. 17, 18).
As Escrituras querem dizer claramente que os crentes deveriam se casar apenas com pessoas igualmente crentes. Mas o princípio possui aplicação ainda mais ampla. Verdadeira união depende de acordo em termos de crenças e práticas. Diferenças na experiência religiosa conduzem a diferenças de estilo de vida, que podem levar a profundas tensões e fissuras no matrimônio. Para se alcançar a unidade da qual falam as Escrituras, as pessoas deveriam se casar apenas com outras que pertencessem à mesma comunhão.[6]
b. Sustentar-se mutuamente. Para que possam se tornar uma só carne, duas pessoas devem dedicar completa lealdade uma à outra. Quando alguém se casa, corre todos os riscos e aceita todas as ocorrências relacionadas com seu cônjuge. Aqueles que se unem em matrimônio proclamam sua disposição em compartilhar a responsabilidade do cônjuge, de permanecer ao lado do parceiro contra qualquer evento. O casamento requer aquela espécie de amor ativo e persistente, que não desiste com facilidade.
“Duas pessoas compartilham tudo aquilo que possuem, não apenas seu corpo, não somente suas posses materiais, mas também seus pensamentos e sentimentos, suas alegrias e seus sofrimentos, suas esperanças e seus fracassos. ‘Tornar-se uma só carne’ significa que duas pessoas se tornam completamente uma no corpo, alma e espírito, embora ainda retenham a sua individualidade.”[7]
c. Intimidade. Tornar-se uma só carne envolve relacionamento sexual: “Coabitou o homem com Eva, sua mulher”, e “esta concebeu” (Gn 4:1). No ato em que provocam a união de corpos, uma tendência que homens e mulheres têm sentido desde os dias de Adão e Eva, cada casal reedita a primeira história de amor. O ato de intimidade sexual é a união física mais próxima possível; ela representa a proximidade emocional e espiritual que o casal pode igualmente desenvolver. O amor matrimonial dos cristãos deveria se caracterizar pelo calor, alegria e deleite (Pv 5:18, 19).
“Digno de honra entre todos seja o matrimônio, bem como o leito sem mácula” (Hb 13:4). “As Escrituras nos ensinam claramente que a deleitosa expressão sexual de amor entre marido e esposa constitui plano de Deus. Ela é uma experiência – conforme salienta o autor de Hebreus – sem mácula, não pecaminosa, não poluída. Cabe-lhe lugar de grande honra no matrimônio – o santo dos santos em que marido e mulher se encontram reservadamente a fim de celebrar o amor que nutrem um pelo outro. Esses momentos se destinam a ser tão sagrados quanto intensamente deleitosos.”[8]
5. Amor bíblico. Amor marital significa devoção incondicional, cheia de afeto e íntima de um para o outro, a qual estimula o mútuo crescimento da pessoa à imagem de Deus, em todos os aspectos: físico, emocional, intelectual e espiritual. Diferentes espécies de amor operam no casamento: ele possui seus momentos românticos, apaixonados; seus instantes altamente sentimentais; suas ocasiões de conforto; suas horas de companhia e de senso de pertinência. Entretanto, é o amor do tipo agape descrito no Novo Testamento – o amor altruísta, todo dedicado ao outro – que corresponde ao fundamento do amor marital verdadeiro e duradouro.
Jesus manifestou a mais elevada forma dessa espécie de amor quando, aceitando simultaneamente a culpa e os resultados de nossos pecados, assumiu a cruz. “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim” (Jo 13:1). Ele nos ama a despeito do que nossos pecados representaram para Ele. Esse foi e é o incondicional amor agape de Jesus Cristo.
Descrevendo esse amor, Paulo escreveu: “O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acaba” (1Co 13:4-8).
Comentando essa passagem, Ed Wheat escreveu: “O amor agape acha-se ligado a uma eterna fonte de poder e pode se manter em operação quando qualquer outro tipo de amor fracassa [...] Ele ama, não importa o que. Independentemente de quão detestável seja a outra pessoa, agape consegue manter-se funcionando. Agape é o amor incondicional de Deus por nós. É uma atitude mental baseada em uma escolha deliberada da vontade.”[9]
6. Responsabilidade espiritual individual. Embora os participantes do concerto matrimonial tenham se vinculado indissoluvelmente um ao outro, continuam eles sendo individualmente responsáveis pelas decisões que tomam (2Co 5:10). Assumir tais responsabilidades significa que um dos cônjuges jamais acusará o outro em virtude de decisões que ele próprio tomou. Eles devem também assumir a responsabilidade por seu próprio crescimento espiritual; ninguém pode repousar sobre a força espiritual do outro. Ainda assim, contudo, o relacionamento de cada um deles com Deus pode servir como fonte de força e estímulo para o outro.
Os efeitos da queda sobre o matrimônio
A distorção do reflexo humano da imagem de Deus, causada pelo pecado, exerceu seus efeitos sobre o matrimônio, tão certamente como o fez em relação a todas as demais áreas da experiência humana. Interesses próprios introduziram-se onde antes reinara perfeito amor e unidade. O egoísmo é o motivador primário de todos aqueles que não são impelidos pelo amor de Cristo. Opondo-se a todos os princípios da entrega, serviço altruísta e disposição para dar, que o evangelho representa, é o egoísmo o denominador comum de todo fracasso cristão.
Pela desobediência, Adão e Eva violaram o propósito de sua criação. Antes do pecado, haviam eles vivido em contato direto com Deus. Depois, em vez de se dirigirem alegremente a Ele, esconderam-se dele temerosos, tentando ocultar a verdade a respeito de si próprios e negando qualquer responsabilidade por suas ações. Possuídos de um senso de profunda culpa que as racionalizações não conseguiram apagar, não podiam enfrentar o olhar de Deus e dos santos anjos. Desde então, essa evasão e autojustificadora negação tem constituído o modelo comum de relacionamento humano com Deus.
O temor que os levou a se esconderem, distorceu não apenas o relacionamento de Adão e Eva com Deus, como também o de um para com o outro. Quando Deus os questionou, ambos tentaram se proteger às custas do outro. Suas acusações provêm evidência do grave desequilíbrio que ocorreu no relacionamento de amor que Deus estabelecera na criação.
Após o pecado, Deus disse à mulher: “O teu desejo será para o teu marido, e ele te governará” (Gn 3:16). Deus pretendia que esse princípio, que não alterou a igualdade básica entre homem e mulher, beneficiasse tanto o primeiro par quanto todos os que se casassem daí por diante.[10] Infelizmente o princípio também sofreu distorção. Desde então, a dominação por meio do poder, da manipulação e da destruição da individualidade tem caracterizado o matrimônio ao longo dos séculos. A centralização em si mesmo tem feito reduzir-se grandemente a aceitação e apreço de um pelo outro.
A essência do cristianismo é viver segundo a harmonia autonegadora que caracterizava o matrimônio antes da queda; mas esta destruiu aquela harmonia. As afeições do marido e da esposa devem contribuir para a felicidade um do outro. Cada um deve cultivar a felicidade do outro. Devem fundir-se em um só, embora nenhum deles deva perder sua individualidade, pois esta pertence a Deus.[11]
Desvios em relação ao ideal divino
Poligamia. A prática segundo a qual um dos cônjuges mantém vários consortes é contrária à singularidade da união que Deus estabeleceu no primeiro matrimônio, no Éden. Na poligamia, o indivíduo não deixa todas as demais. Embora as Escrituras descrevam os casamentos múltiplos como uma realidade cultural no tempo dos patriarcas, a própria descrição mostra claramente que esses casamentos não preenchiam o ideal divino. As várias subunidades dentro desses casamentos vieram a envolver-se em disputas de poder, amargos ressentimentos e alienação (Gn 16; cf. 29:16-30:24), sendo as crianças utilizadas como armas emocionais para atingir outros membros da família.
O casamento monogâmico provê aos cônjuges o senso de que pertencem um ao outro, e este fortalece sua intimidade e vinculação. Eles compreendem que seu relacionamento é único e que nenhuma outra pessoa pode compartilhar daquilo que eles compartilham. A relação monogâmica reflete de modo mais claro o relacionamento entre Cristo e sua igreja, e entre os indivíduos e Deus.[12]
Fornicação e adultério. O moderno modo de pensar e proceder faz pouco caso do compromisso pelo qual ambos os cônjuges devem manter fidelidade sexual um ao outro, até à morte. Mas as Escrituras caracterizam como pecado qualquer relação sexual praticada fora do casamento. O sétimo mandamento permanece válido e sem alteração: “Não adulterarás” (Êx 20:14). Não são apresentadas aqui razões qualificativas ou desqualificativas. Esse mandamento é um princípio que preserva zelosamente a relação matrimonial.
A grande preocupação da visão bíblica com respeito à fornicação e ao adultério, apresenta-se em contraste direto com a atual tolerância de tais atividades por parte de “adultos que consentem”. Muitas passagens, tanto do Antigo quanto do Novo Testamentos, condenam tais práticas (Lv 20:10-12; Pv 6:24-32; 7:6-27; 1Co 6:9, 13, 18; Gl 5:19; Ef 5:3; 1Ts 4:3).
Tais ligações podem manifestar resultados de longo alcance e de efeitos prolongados. Elas defraudam o parceiro sexual legítimo, podendo lhe causar dano físico, emocional, financeiro, legal e social. Danificam as famílias envolvidas e, se existem crianças, estas é que sofrem o maior prejuízo. Esse concubinato pode propiciar a transmissão de doenças venéreas e o nascimento de bebês ilegítimos. Além do mais, as nuvens de mentira e desonestidade que normalmente envolvem tais atividades, destroem de tal modo a confiança que, em muitos casos, esta nunca mais consegue ser restaurada. Mesmo à parte das injunções bíblicas contra essas formas de imoralidade, o turbilhão de consequências infelizes daí resultantes seria suficiente para prover ampla advertência contra o envolvimento nas mesmas.
Impureza de pensamentos. Pecado não é apenas o ato exterior; ao contrário, é também uma questão do coração que alcança profundamente os domínios do pensamento. Se a fonte estiver contaminada, não poderão ser limpos os rios. Jesus percebeu que das reservas íntimas da mente provinham as motivações do comportamento humano, afirmando que “do coração procedem os maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias” (Mt 15:19). Dentro dessa linha de pensamento, esboçou Ele o ato de infidelidade praticado no nível de pensamentos e emoções: “Ouvistes o que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela” (Mt 5:27, 28).
Toda uma indústria se desenvolveu a fim de capitalizar a perversão da imaginação. Os filmes e livros sensuais que ela produz não podem encontrar lugar na vida do cristão. Eles não somente estimulam relacionamentos ilícitos, como também reduzem homens e mulheres a meros objetos sexuais, distorcendo desse modo o verdadeiro significado da sexualidade e obscurecendo a imagem de Deus. Os cristãos são chamados a exercitar pensamentos puros e viver vida pura, pois estão se preparando para viver em uma sociedade pura ao longo de toda a eternidade.
Incesto. Alguns pais ultrapassam as fronteiras que demarcam a expressão saudável de afeição por seus filhos, tornando-se física e emocionalmente envolvidos, no âmbito íntimo, com eles. Com frequência isso ocorre quando o relacionamento normal entre esposo e esposa foi negligenciado e uma das crianças foi escolhida para desempenhar o papel do cônjuge. Esse atropelo de limites também pode ocorrer entre irmãos e membros da família mais ampla.
O incesto foi proibido no Antigo Testamento (Lv 18:6-29; Dt 27:20-23)e condenado pelo Novo (1Co 5:1-5). Essa espécie de abuso danifica o desenvolvimento sexual da criança e joga sobre a mesma um imerecido fardo de culpa e vergonha, que poderá transparecer no casamento, mais tarde. Quando os pais transgridem os referidos limites, danificam o desenvolvimento do senso de confiança de seus filhos – o qual é extremamente vital à fé em Deus.
Divórcio. Uma declaração de Jesus resume o que a Bíblia tem a dizer no tocante ao divórcio: “O que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mt 19:6; Mc 10:7-9). O matrimônio é sagrado porque Deus o consagrou. Em última análise, é Deus quem une marido e mulher, e não meramente palavras humanas ou o ato sexual. Portanto, foi Ele quem selou essa união. A compreensão cristã do divórcio e do novo casamento, portanto, deve basear-se no terreno firme das Escrituras.
A declaração de Jesus torna claro o princípio escriturístico básico subjacente à compreensão cristã do divórcio: Deus pretende que o casamento seja indissolúvel. Quando os fariseus lhe perguntaram se a incompatibilidade marital constituía razão suficiente para o divórcio,Cristo afirmou que o modelo de casamento apresentado no Éden era o de uma união permanente. Quando o pressionaram ainda mais, citando a lei do divórcio concedida por Moisés, Ele respondeu: “Por causa da dureza do vosso coração é que Moisés vos permitiu repudiar vossa mulher; entretanto, não foi assim desde o princípio” (Mt 19:8). Ele prosseguiu ao estipular que a única razão legítima para o divórcio era a infidelidade conjugal (Mt 5:32; 19:9).
A resposta de Jesus aos fariseus deixa claro que Ele possuía uma compreensão muito mais ampla da questão da fidelidade do que eles. A partir do que Ele falou, e dos princípios relacionados com o casamento, expostos tanto no Antigo quanto no Novo Testamentos, pode-se afirmar que Deus deseja que aqueles que se casam reflitam a imagem divina por meio de uma união permanente.
Mesmo a infidelidade de um dos cônjuges não significa que o matrimônio deve terminar em divórcio. O caminho da cruz estimula profundo arrependimento e perdão, afastando as raízes da amargura. Mesmo no caso de adultério, por meio do perdão e do poder reconciliador de Deus, o cônjuge ofendido deveria se esforçar por manter o propósito original de Deus, manifestado na criação. “Biblicamente falando, o adultério não necessita ser mais destrutivo para o casamento do que qualquer outro pecado. [...] Quando você tem plena disposição para perdoar e se afasta de atitudes negativas, Deus estará mais do que pronto para curar você e para renovar seu amor pelo outro cônjuge.”[13]
Ainda que o ideal divino para o matrimônio seja o de uma união amorável e permanente, que deve prosseguir até à morte do parceiro, por vezes se torna necessária a separação legal em virtude de ofensas físicas, tais como abuso do cônjuge ou de uma criança. “Em algumas jurisdições civis, tal separação só pode ser obtida através do divórcio, que sob tais circunstâncias não deve ser condenado. Mas em tais separações ou divórcios, nos quais a infidelidade aos votos matrimoniais não se acha envolvida, não tem nenhum dos cônjuges o direito escriturístico de casar novamente, a menos que nesse meio tempo o outro cônjuge torne a casar-se, praticando assim adultério ou fornicação; ou então se o outro é removido através da morte.”[14]
Pelo fato de ser o casamento uma instituição divina, a igreja tem sobre si uma responsabilidade singular e solene, tanto no sentido de evitar o divórcio quanto, em ele ocorrendo, de remediar tanto quanto possível as feridas por ele causadas.
Homossexualidade. Deus criou homem e mulher para serem diferentes um do outro, e ainda assim se complementarem. Ao assim criá- los, orientou seus sentimentos sexuais em direção ao sexo oposto. A diferenciação e conexão que caracterizam as pessoas, manifestam- se na atração que aproxima os dois sexos um do outro, de modo a estabelecer uma relação completa.
Em alguns casos, o pecado afetou até mesmo essa orientação básica, trazendo a lume um fenômeno que tem sido identificado como inversão. Em tais casos, a orientação natural em direção ao sexo oposto aparece invertida, produzindo uma orientação sexual básica dirigida para pessoas do mesmo gênero.
As Escrituras condenam as práticas homossexuais em termos fortemente negativos (Gn 19:4-10; cf. Jd 7, 8; Lv 18:22; 20:13; Rm 1:26-28; 1Tm 1:8-10). Práticas desse tipo produzem séria distorção da imagem de Deus sobre homens e mulheres.
Uma vez que “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3:23), os cristãos tratarão com vistas à redenção daqueles que são afligidos por esta distorção. Eles procurarão refletir a atitude de Cristo manifestada para com a mulher apanhada em adultério: “Nem Eu tampouco te condeno; vai e não peques mais” (Jo 8:11). Não apenas os que possuem tendências homossexuais, mas todas as pessoas que se encontram presas a comportamentos ou relações que causam ansiedade, vergonha e sentimento de culpa, necessitam do ouvido cheio de simpatia de um conselheiro cristão treinado e experiente. Nenhum comportamento está além do alcance da restauradora graça de Deus.[15]
A família
Depois de haver criado Adão e Eva, Deus lhes concedeu domínio sobre todo o mundo (Gn 1:26; 2:15). Eles construíram a primeira família, a primeira igreja, e assinalaram o começo da sociedade. Assim, foi a sociedade construída sobre os alicerces do matrimônio e da família. Pelo fato de serem os únicos habitantes humanos da Terra, Deus lhes ordenou: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a Terra e sujeitai-a” (Gn 1:28).
Conforme indicam as estatísticas populacionais do mundo, não mais existe uma Terra despovoada, clamando por ser habitada e dominada. Mas aqueles casais cristãos que decidem trazer filhos ao mundo, têm ainda sobre si a obrigação de conduzir seus filhos no caminho e na admoestação do Senhor. Antes que o casal se envolva efetivamente naprocriação, deve considerar o ideal divino para a família.
Pais
1. O pai. As Escrituras atribuem ao esposo e pai a responsabilidade de cabeça do lar e sacerdote da família (Cl 3:18-21; 1Pe 3:1-8). Ele se torna um tipo de Cristo, a cabeça da igreja. “O marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, sendo este mesmo salvador do corpo. Como, porém, a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo submissas ao seu marido. Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito. Assim também os maridos devem amar a sua mulher como ao próprio corpo. Quem ama a esposa a si mesmo se ama” (Ef 5:23-28).
Assim como Cristo conduz a igreja, marido e esposa “devem ambos concordar, mas a Palavra de Deus concede preferência ao julgamento do marido” sempre que não estiver implicada uma questão de consciência.[16] Ao mesmo tempo, tem ele a responsabilidade de tratar a individualidade da esposa com o mais profundo respeito.
Assim como Cristo demonstrou uma liderança gentil, que o conduziu à cruz em atitude de servidão, assim deve o esposo proceder em sacrifício próprio. “A regra de Cristo é sábia e amorável, e quando os esposos cumprem suas obrigações para com as esposas, usarão a autoridade de que dispõem, da mesma forma bondosa com que Cristo a utilizou em relação à igreja. Quando o Espírito de Cristo controla o esposo, a sujeição da esposa resultará tão somente em descanso e benefício, pois ele requererá de sua esposa apenas aquilo que resultará em bem, e da mesma forma como Cristo requer submissão da igreja. [...] Que aqueles que ocupam a posição de maridos estudem as palavras de Cristo, não para descobrir quão completa deve ser a sujeição da esposa, mas para descobrir como podem eles ter a mente de Cristo, tornando-se purificados, refinados e aptos para ser os senhores de suas casas.”[17]
Na qualidade de sacerdote da família – tal como Abraão – o pai reunirá os seus no início do dia, a fim de entregá-los ao cuidado do Senhor. À tardinha, ele os conduzirá em louvor ao nome santo e em ações de graças diante das bênçãos recebidas. Essa adoração em família será o laço que une – a oportunidade que concede a Deus a prioridade na família.[18]
O pai sábio gasta tempo com seus filhos. Uma criança pode aprender muitas lições do pai, tais como respeito e amor pela mãe, amor a Deus, a importância da oração, amor por outras pessoas, a senda do trabalho, modéstia, amor pela natureza e pelas coisas que Deus criou. Mas se o pai jamais se encontra no lar, a criança é privada desse privilégio e alegria.
2. A mãe. A maternidade é a relação terrestre que melhor pode ser comparada com Deus. “O rei em seu trono não tem função mais elevada que a mãe. A mãe é a rainha do lar. Ela tem em seu poder o modelar o caráter dos filhos, para que estejam capacitados para a vida mais alta, imortal. Um anjo não desejaria missão mais elevada; pois em fazendo sua obra ela está realizando serviço para Deus. Compreenda ela tão somente o elevado caráter de sua tarefa, e isto lhe inspirará coragem. Compreenda ela a dignidade de sua obra e tome toda a armadura de Deus, para que possa resistir a tentação de se conformar aos padrões do mundo. Sua obra é para o tempo e a eternidade.”[19]
Alguém, na família, deve assumir a responsabilidade última pelo caráter dos filhos. O desenvolvimento das crianças não pode ser deixado a esmo ou delegado a outros, pois ninguém sentirá pela criança aquilo que seus pais sentem. Deus criou a mãe com a habilidade de conduzir as crianças dentro de seu próprio corpo, amamentá-las, criá-las e amá-las. Exceto diante de circunstâncias tais como severos fardos financeiros ou em lhe cabendo a tarefa de pai e mãe,[20] a mãe tem o privilégio único – se ela o aceitar – de ficar com seus filhos durante todo o dia; ela pode desfrutar de uma obra criadora junto com Deus, enquanto molda o caráter de seus filhos para a eternidade.
“Alguém relacionado com a família necessita considerá-la como a sua carreira. [...] Assumir a carreira de mãe e esposa é uma atividade fabulosamente rara no século vinte, e um trabalho cheio de desafios. Esforços perdidos? Ocupação ingrata? Escrava indigna? Não, a mais excitante possibilidade de inverter a maré, de salvar a espécie, de influenciar a História, de realizar algo que será sentido e ouvido em círculos cada vez mais amplos.”[21]
Nos tempos do Antigo Testamento, os nomes das pessoas traziam consigo uma pequena declaração a respeito de quem havia gerado a pessoa. Eva recebeu seu nome depois da queda (Gn 3:20). Uma vez que ela deveria se tornar a mãe de todos os seres humanos, seu nome (chawwah, no hebraico) derivava da palavra correspondente a “vivente” (cahy, no hebraico). Isso refletia a extraordinária posição de honra que ela ocupa na história da raça humana.
Assim como a procriação não constituía direito exclusivo, quer de Adão, quer de Eva, tampouco o constituía a paternidade. Essa responsabilidade também deveria ser compartilhada. Ainda hoje deve ser assim, não apenas na concepção dos filhos, como também ao criá-los. Cada um dos pais tem certas responsabilidades, e estas devem ser executadas como sendo feitas para o Senhor. “Herança do Senhor são os filhos; o fruto do ventre, seu galardão” (Sl 127:3).
Filhos
1. Uma prioridade. Depois de suas responsabilidades para com o Senhor e com o outro cônjuge, não têm os pais maior responsabilidade que em relação às crianças que trouxeram ao mundo. Devem colocar os interesses dos filhos acima de sua própria promoção e conforto; as crianças não escolheram vir ao mundo, e devem ser-lhes concedidas as me-lhores oportunidades para começar bem na vida. Uma vez que as influências pré-natais afetam vitalmente a saúde espiritual, mental e física do novo ser, o esforço de promover o bem-estar das crianças deveria começar antes do nascimento.[22]
2. Amor. O amor dos pais deveria ser incondicional e disposto ao sacrifício. Mesmo que ele jamais venha a ser plenamente retribuído, as crianças precisam recebê-lo a fim de poderem desenvolver boa autoimagem e saúde emocional por toda a vida. Crianças que têm necessidade de se esforçar para obter o amor ou que se sentem rejeitadas e sem importância, tentarão obter amor de seus pais por meio do comportamento indesejado, o qual se torna arraigado e habitual.[23]
Crianças que sentem certeza do amor de seus pais o estenderão a outros. Pode-se lhes ensinar a dar e a receber, e que há uma razão para a existência, além do próprio eu. À medida que as crianças crescem, pode-se lhes ensinar a glorificar a Deus.
3. Comprometimento. Os pais cristãos devem dedicar seus filhos ao serviço de Deus tão cedo quanto possível na vida. As congregações adventistas do sétimo dia proveem a oportunidade de tal dedicação por meio de uma cerimônia simples, na qual, diante da congregação, os pais apresentam seus filhos a Deus em oração, tal como José e Maria apresentaram o infante Jesus ao Senhor no templo (Lc 2:22-39). Dessa forma, a criança começa a vida como parte da família espiritual mais ampla. Membros da congregação participam do desenvolvimento social e espiritual de seus pequenos, pois estes são também filhos de Deus e membros do corpo de Cristo.
Nesse serviço de dedicação, os pais também se dedicam à educação da criança nos caminhos do Senhor, de modo que a imagem de Deus possa ser formada sobre o infante. Para alcançar esse alvo, os pais deverão trazer os pequenos à Escola Sabatina e à igreja, fazendo-o com regularidade, e assim os filhos se sentirão como fazendo parte do corpo de Cristo desde cedo na vida. Ao atingirem as crianças a idade escolar, os pais e a igreja deverão envidar todos os esforços para que os pequenos recebam educação cristã, que fará crescer neles ainda mais o amor ao Salvador.
4. Constância. Os ensinamentos espirituais que os pais praticam, representam um processo constante, que avança para cada fase da vida das crianças. “Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te. Também as atarás como sinal na tua mão, e te serão por frontal entre os teus olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa e nas tuas portas” (Dt 6:6-9; 11:18 e seguintes).
A criança é influenciada por toda a atmosfera do lar. Os pais não podem ministrar espiritualidade apenas por meio do culto doméstico. Ela deve vir através de sua contínua confiança em Jesus; deve ser manifestada no estilo de vida dos pais, no seu vestuário e até mesmo na decoração do lar. Conhecer a Deus como um pai amorável é vital para o crescimento cristão da criança.
5. Aprendizado da obediência. “Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele” (Pv 22:6). O que significa isso? Disciplina implica muito mais que apenas punição. A punição usualmente lida com o passado, ao passo que a disciplina contempla o futuro. A disciplina é um processo de discipulado, em que a criança é o aprendiz dos pais no tocante a treinamento, orientação e exemplo. Significa ensinar princípios importantes, tais como lealdade, verdade, justiça, coerência, paciência, ordem, misericórdia, generosidade e trabalho.
Quando as crianças aprendem desde cedo a obedecer implicitamente aos pais, a autoridade jamais será problema para elas ao longo da vida. Mas o tipo de obediência aprendida também é importante. A obediência genuína se manifesta não apenas porque é requerida, mas porque brota do íntimo. O segredo desse tipo de obediência repousa no novo nascimento.
“O homem que tenta observar os mandamentos de Deus por um senso de obrigação apenas – porque é requerido que assim faça – jamais sentirá o prazer da obediência. Não obedece. Quando, por contrariarem a inclinação humana, os reclamos de Deus são considerados um fardo, podemos saber que a vida não é uma vida cristã. A verdadeira obediência é a expressão de um princípio interior. Origina-se do amor à justiça, o amor à lei de Deus. A essência de toda justiça é lealdade ao nosso Redentor. Isso nos levará a fazer o que é reto porque é reto, porque a retidão é agradável a Deus.”[24]
6. Socialização e desenvolvimento da linguagem. É no círculo familiar que as crianças se tornam seres sociais, membros da raça humana, com todos os privilégios e responsabilidades que isso implica. Socialização é o processo pelo qual as crianças aprendem as habilidades básicas com as quais desempenharão funções na sociedade. A linguagem, com todas as suas nuances de comunicação, é uma das primeiras habilidades adquiridas pela criança. A linguagem utilizada em casa deve ser cuidadosamente monitorada, de modo que por ela se possa revelar o caráter de Deus. A criança deveria ouvir frequentes expressões alegres e espontâneas de afeição entre os membros da família, bem como louvores a Deus.
7. Identidade de gênero. É no lar, com todas as interações que ocorrem entre pessoas do sexo masculino e feminino, e que constituem todo o sistema familiar, que a criança aprende a agir como homem ou como mulher no contexto da sociedade. Os adultos devem lhe ensinar quanto à beleza de seu desenvolvimento sexual por meio de informações corretas e apropriadas. É também responsabilidade dos pais salvaguardar as crianças do abuso sexual.
8. Aprendizado de valores. Uma função básica de socialização no lar, consiste em prover à criança a assimilação dos valores retratados pela família. Os valores familiares e seus conceitos religiosos nem sempre coincidem. Os pais podem professar adesão a certos princípios religiosos, mas os valores por meio dos quais os filhos são moldados podem não estar de acordo com esses princípios. É importante que os pais sejam coerentes.
A família ampliada. O matrimônio, tal qual projetado por Deus, é exclusivo; a família, porém, não o é. Em uma sociedade tão movimentada como a atual, raramente encontraremos a família, no seu conceito mais amplo – avós, irmãos e primos – vivendo todos bem próximos uns dos outros. A igreja pode ajudar aqueles que estão distantes dos parentes de sangue, ou que não os possuem, a encontrar verdadeiro senso de valor e de pertinência. Aqui, também, os pais que se encontram no desempenho de função dupla (pai e mãe, simultaneamente), encontrarão um lugar confortável para a condução de seus filhos com amor e terna estima. E a igreja pode suprir modelos apropriados de desempenho, que talvez estejam faltando em casa.
Aprendendo a amar as pessoas de mais idade na congregação, as crianças aprendem o respeito. Por sua vez, aqueles de mais idade deveriam expressar sua satisfação em ter um pequeno a quem podem amar e com quem se deleitar. “Não me desampares, pois, ó Deus, até à minha velhice e às cãs; até que eu tenha declarado à presente geração a tua força, e às vindouras o teu poder” (Sl 71:18).
Deus concede consideração especial aos idosos, dizendo: “Coroa de honra são as cãs, quando se acham no caminho da justiça” (Pv 16:31) e “Até à vossa velhice, Eu serei o mesmo e, ainda até às cãs, Eu vos carregarei; já o tenho feito; levar-vos-ei, pois, carregar-vos-ei e vos salvarei” (Is 46:4).
Na igreja, os solteiros – ou solitários – encontrarão um lugar especial onde poderão ser amados e estimados, e onde também poderão compartilhar seu amor e energia com os outros. Através de seu ministério, podem chegar a sentir o cuidado de Deus por eles: “Com amor eterno Eu te amei; por isso, com benignidade te atraí” (Jr 31:3).
Constitui parte da “religião pura” prover atenção especial para os que se encontram em necessidade (Tg 1:27; Êx 22:22; Dt 24:17; 26:12; Pv 23:10; Is 1:17). A família da igreja tem a oportunidade especial de prover um refúgio, um abrigo, um ponto de referência a todos os que não possuem família; isso pode circundar e incluir cada membro na unidade especial que, Cristo disse, seria a própria marca do cristianismo (Jo 17:20-23).
O retorno
Uma vez que a família é a própria alma da igreja e da sociedade, a família cristã será um instrumento para a conversão e manutenção de seus membros no rebanho do Senhor. Os últimos versículos do Antigo Testamento são uma profecia daquilo que ocorrerá antes do retorno do Senhor: “Eis que Eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível Dia do SENHOR; ele converterá o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais” (Ml 4:5, 6). Enquanto várias forças da atualidade tentam dispersar os membros da família, Deus a convoca para uma re-união, uma resolidificação, um retorno e restauração. Aquelas famílias que responderem a seu chamado possuirão um poder que revelará o genuíno cristianismo. A igreja que for constituída de tais famílias crescerá; seus jovens não a abandonarão; ela retratará perante o mundo um quadro nítido de Deus.