Crença 1 · Doutrina: Deus
As Escrituras Sagradas
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As Escrituras Sagradas
As Escrituras Sagradas, o Antigo e o Novo Testamentos, são a Palavra de Deus escrita, dada por inspiração divina. Os autores inspirados falaram e escreveram ao serem movidos pelo Espírito Santo. Nesta Palavra, Deus transmite à humanidade o conhecimento necessário para a salvação. As Escrituras Sagradas são a revelação infalível, suprema e repleta de autoridade de sua vontade. Constituem o padrão de caráter, a prova da experiência, o revelador definitivo de doutrinas e o registro fidedigno dos atos de Deus na história (2Pe 1:20, 21; 2Tm 3:16, 17; Sl 119:105; Pv 30:5, 6; Is 8:20; Jo 17:17; 1Ts 2:13; Hb 4:12).
As Escrituras Sagradas
Nenhum livro jamais foi tão amado, tão odiado, tão reverenciado e tão execrado quanto a Bíblia. Muitas pessoas foram mortas em favor da Bíblia, outras tantas mataram por sua causa. Ela tem inspirado as maiores e mais nobres ações humanas, ao mesmo tempo em que é acusada por seus atos mais danosos e degenerados. Guerras têm sido travadas em virtude da Bíblia, revoluções têm-se orientado a partir de suas páginas, e reinos vieram abaixo com base em suas ideias. Pessoas de todos os pontos de vista – de teólogos da libertação a capitalistas, de fascistas a marxistas, de ditadores a libertadores, de pacifistas a militaristas – percorrem avidamente as suas páginas à procura de palavras que justifiquem os seus feitos.
Mas a singularidade da Bíblia não provém de suas incomparáveis influências políticas, culturais e sociais, exercidas sobre o mundo; provém, antes, de sua fonte original e dos assuntos de que trata. É a revelação divina do Deus-homem único: o Filho de Deus, Jesus Cristo, o salvador do mundo.
Revelação divina
A despeito das muitas questões desafiadoras que têm sido levantadas acerca de Deus, ao longo da história o ser humano tem testificado confiantemente de sua existência, verificando que Ele existe e que se revelou de várias formas. De que modo Deus se revelou à raça humana e como a Bíblia funciona em sua revelação?
Revelação geral. Muitos veem canais da autorrevelação de Deus na natureza, na história, no comportamento e consciência humanos. Vislumbres da natureza de Deus, obtidos por meio dessas avenidas, são frequentemente identificados como “revelação geral”, uma vez que tal revelação se encontra disponível para todos e apela à própria razão humana.
Para milhões de pessoas, “Os Céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das Suas mãos” (Sl 19:1). O brilho do Sol, a chuva, as montanhas e as correntes de águas, todos testificam de um amorável Criador.. “Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o Seu eterno poder, como também a Sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas” (Rm 1:20).
Outros percebem evidências de um Deus que zela por seus filhos, por meio do feliz relacionamento e extraordinário amor manifestado entre amigos, membros da família, esposo e esposa, pais e filhos. “Como alguém a quem sua mãe consola, assim Eu vos consolarei” (Is 66:13). “Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece dos que o temem” (Sl 103:13).
Contudo, os mesmos raios de sol que testificam de um Deus amoroso podem se derramar sobre a terra, convertendo-a em um inóspito deserto e trazendo a fome; a mesma chuva pode se converter em torrentes que afogam famílias inteiras; as mesmas montanhas altaneiras podem fender-se, tremer e se abater sobre populações inteiras. As relações humanas acham-se muitas vezes impregnadas de inveja, ciúme, ira, ódio e manifestações assassinas.
O mundo que nos cerca provê sinais confusos, apresentando ao mesmo tempo perguntas e respostas. Ele manifesta o conflito entre o bem e o mal, mas não explica de que modo o conflito começou, quem se encontra envolvido na luta, por que, e quem finalmente vencerá a batalha.
Revelação especial. O pecado limita a autorrevelação de Deus manifestada pela criação, pelo fato de obscurecer a habilidade humana em interpretar o testemunho de Deus. Portanto, tendo em vista auxiliar os indivíduos na compreensão das coisas divinas, Deus apresentou uma “revelação especial” de si próprio. Ele decidiu se apresentar diante da humanidade por um meio específico, o qual não deixaria margem a questões no tocante a seu caráter ou seu amor pela humanidade – e Deus o fez através das Escrituras do Antigo e do Novo Testamentos. No princípio, sua revelação veio por meio dos profetas; depois, ela foi transmitida por intermédio de sua revelação última, a pessoa de Jesus Cristo (Hb 1:1, 2).
Na Bíblia, Deus se revela a si próprio em pessoa, bem como por meio de proposições que declaram a verdade a seu respeito. Ambos os tipos de revelação se fazem necessários por que as pessoas necessitam conhecer Deus por meio de Jesus (Jo 17:3), bem como a verdade “segundo é [...] em Jesus” (Ef 4:21). Essas revelações permitem que Deus quebre as limitações mentais, morais e espirituais dos seres humanos e comunique seu desejo de salvá-los.
O ponto central das Escrituras
A Bíblia expõe a humanidade e revela a Deus. Expõe a condição humana e revela a solução divina. Os seres humanos são mostrados como perdidos, separados de Deus, enquanto Jesus é apresentado como aquele que localiza o perdido e o traz de volta.
Jesus Cristo é o ponto focal das Escrituras. No Antigo Testamento Ele é o Messias, o redentor do mundo; no Novo Testamento, Ele é revelado como Jesus Cristo, o salvador. Cada livro – quer através de símbolos, quer em realidades concretas – revela algum aspecto de Jesus Cristo, alguma fase de seu trabalho ou traço de seu caráter. Na cruz do Calvário, a revelação última desse trabalho e o caráter de Deus são dramaticamente demonstrados através da morte de Jesus.
A cruz representa o mais central de todos os pontos focalizados pela Bíblia, pois ela faz convergir para o mesmo local a inominável maldade humana e a incomparável bondade do amor de Deus. Poderia haver vislumbre mais profundo da falibilidade humana? Ou melhor revelação do que é o pecado? A cruz revela também um Deus que permitiu que seu Filho único fosse morto. Que sacrifício! Poderia existir maior sacrifício ou mais abrangente demonstração de amor? Efetivamente, o foco central da Bíblia é a pessoa de Jesus Cristo. Ele ocupa a posição central de todo o drama cósmico. Em breve, quando o conflito entre luz e trevas chegar ao fim, o triunfo de Cristo no Calvário culminará com a erradicação do mal. Seres humanos e Deus estarão outra vez unidos entre si.
O tema do amor de Deus, particularmente conforme visto na morte sacrificial de Cristo no Calvário – e esta é a maior verdade do universo – representa o ponto central da Bíblia. Todas as grandes verdades bíblicas, portanto, deveriam ser estudadas a partir dessa perspectiva.
A autoria das Escrituras
A autoridade da Bíblia como regra de fé e prática decorre de sua origem. Os escritores bíblicos viam as Escrituras como situando-se em uma categoria única, distinta e separada de toda a literatura restante. Eles se referiram à Bíblia como as “Sagradas Escrituras” (Rm 1:2), “sagradas letras” (2Tm 3:15) e os “oráculos de Deus” (Rm 3:2; Hb 5:12).
A singularidade das Escrituras se baseia em sua origem e fonte. Os autores bíblicos destacaram frequentemente o fato de que não eram os originadores de suas mensagens. Eles as recebiam das fontes divinas. Através da revelação divina, eles haviam sido habilitados a “ver” essas verdades (Is 1:1; Am 1:1; Mq 1:1; Hc 1:1; Jr 38:21).
Os escritores bíblicos indicaram o Espírito Santo como sendo a fonte de suas revelações. Ele se comunicava com o povo por intermédio dos profetas (Ne 9:30; cf. Zc 7:12). Davi declarou: “O Espírito do Senhor fala por meu intermédio, e a sua palavra está na minha língua” (2Sm 23:2). Ezequiel escreveu: “Então, entrou em mim o Espírito”, “caiu, pois, sobre mim o Espírito do Senhor”, “depois, o Espírito de Deus me levantou” (Ez 2:2; 11:5, 24). E Miqueias testificou: “Eu, porém, estou cheio do poder do Espírito do Senhor” (Mq 3:8).
O Novo Testamento reconhece o papel desempenhado pelo Espírito Santo na produção do Antigo Testamento. Jesus disse que Davi fora inspirado pelo Santo Espírito (Mc 12:36). Semelhantemente, Paulo percebeu que o Espírito Santo falara “através de Isaías” (At 28:25). Pedro salientou o fato de que o Espírito Santo não operara por intermédio de umas poucas pessoas selecionadas, e sim por meio de todos os profetas (1Pe 1:10, 11; 2Pe 1:21). Por vezes, a figura do autor humano desaparece completamente, e apenas o verdadeiro autor – o Santo Espírito – passa a falar: “Assim, pois, como diz o Espírito Santo”; “querendo com isto dar a entender o Espírito Santo...” (Hb 3:7; 9:8).
Os autores do Novo Testamento reconheceram o Espírito Santo como o autor de suas mensagens. Paulo se refere a Ele como a fonte da revelação que recebeu, dizendo: “Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé” (1Tm 4:1). João inicia o relato de sua visão dizendo: “Achei-me em Espírito, no dia do Senhor”(Ap 1:10). E a comissão de Jesus a seus apóstolos, veio-lhes através do agenciamento do Espírito Santo (At 1:2; Ef 3:3-5).
Assim, Deus, na pessoa do Espírito Santo, revelou-se a si mesmo ao longo das Sagradas Escrituras. Ele as escreveu, não com sua própria mão, mas com o auxílio das mãos de outros – cerca de quarenta pares – ao longo de um período de mais de 1.500 anos. E, no sentido de que Ele inspirou os escritores, Deus é o autor da Bíblia.
A inspiração das Escrituras
Paulo diz que “toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino” (2Tm 3:16). A palavra grega theopneustos, aqui traduzida como “inspirada”, significa literalmente “proveniente do fôlego de Deus”. Deus “inspirou” a verdade nas mentes dos homens, os quais expressaram estas mesmas verdades em suas próprias palavras, que foram consolidadas nas Escrituras. Portanto, inspiração é o processo pelo qual Deus comunica sua verdade eterna.
O processo de Inspiração. A revelação divina foi concedida por meio da inspiração de Deus, ou – conforme Pedro menciona, tendo em mente a revelação profética – “homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” (2Pe 1:21). Eles traduziram essas revelações em linguagem humana com todas as limitações e imperfeições de que ela se acha revestida, mas, ainda assim, aquele era o testemunho de Deus. Os homens – não as palavras – foram inspirados.
Porventura era o profeta alguém meramente passivo e despido de vontade própria, à semelhança de um fantoche, tendo de repetir exatamente aquilo que vira ou ouvira? Em algumas vezes, os profetas receberam ordens no sentido de relatar exatamente aquilo que Deus ordenara, mas, em outras oportunidades, eles foram instruídos a descrever aquilo que haviam ouvido e visto. Parece-nos mais que natural, portanto, que, nesse último caso, o profeta dispunha da faculdade de utilizar seu próprio estilo e palavras para dizer as coisas.
Paulo observou que “os espíritos dos profetas estão sujeitos aos próprios profetas” (1Co 14:32). Genuína inspiração não oblitera a individualidade, a razão, a integridade, nem a personalidade do profeta. O relacionamento entre Moisés e Arão talvez possa ilustrar em certo grau o relacionamento existente entre o Espírito Santo e o autor. Deus disse a Moisés: “Eis que te tenho posto por Deus sobre Faraó; e Arão, teu irmão, será o teu profeta” (Êx 7:1; cf. 4:15, 16). Moisés deveria informar Arão acerca das ordenanças divinas, e Arão deveria utilizar seu próprio vocabulário e estilo ao apresentar as mensagens de Deus perante Faraó. Essa experiência representa um paralelo daquela vivida pelos profetas bíblicos. Eles podiam expressar os mandamentos, pensamentos, ideias e interesses de Deus em sua própria linguagem e estilo. Torna-se evidente tal fato quando observamos a variedade de estilos e termos que aparecem nos vários livros da Bíblia – trata-se, na verdade, de um reflexo da educação e cultura dos vários autores.
Isso significa que a Bíblia “não é a maneira de pensar e de se exprimir de Deus. [...] Os seres humanos dirão muitas vezes que tal expressão não é própria de Deus. Ele, porém, não Se pôs à prova na Bíblia em palavras, em lógica, em retórica. Os escritores da Bíblia foram os instrumentos de Deus, não sua pena”.[1]
“A inspiração não atua nas palavras do ser humano ou em suas expressões, mas na própria pessoa que, sob a influência do Espírito Santo, é dotada de pensamentos. As palavras, porém, recebem o cunho da mente individual. A mente divina é difusa. A mente divina, bem como sua vontade, é combinada com a mente e a vontade humanas; assim as declarações do ser humano são a Palavra de Deus.”[2]
Existe uma exceção: os Dez Mandamentos. Eles são de composição divina, não humana. Foram pronunciados pelo próprio Deus e escritos por sua própria mão (Êx 20:1-17; 31:18; Dt 10:4, 5). Mesmo assim, foram expressos tendo em vista as limitações da linguagem humana.
A Bíblia é, pois, a verdade divina expressa em linguagem humana. Imagine o que seria a tentativa de ensinar física quântica a um bebê. Esse é o tipo de problema que Deus enfrenta em seu esforço de comunicar verdades divinas à humanidade limitada e pecadora. É a nossa limitação que restringe aquilo que Ele consegue nos comunicar. Existe um paralelismo entre Jesus feito carne e a Bíblia: Jesus combinou em si Deus e a raça humana, o divino e o humano se tornaram um. De modo similar, a Bíblia também reúne o divino e o humano em um só. O mesmo que foi dito de Cristo, pode ser afirmado da Bíblia: “o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1:14). Essa combinação divino-humana faz com que a Bíblia assuma um lugar absolutamente singular na literatura.
Inspiração e os escritores bíblicos. O Espírito Santo preparou certas pessoas para que recebessem a comunicação das verdades divinas. A Bíblia não explica em detalhes de que forma o indivíduo recebia a qualificação, mas por intermédio do Espírito Santo estabeleceu-se uma união entre os agentes divino e humano.
Aqueles que tomaram parte em escrever a Bíblia não foram escolhidos por causa de seus talentos naturais. A revelação divina recebida não convertia a pessoa ou lhe assegurava a vida eterna. Balaão proclamou uma revelação divina, recebida sob inspiração, mas agiu de forma contrária aos conselhos de Deus (Nm 22-24). Davi, que foi amplamente usado pelo Espírito Santo, cometeu grandes crimes em sua vida (o que pode ser verificado em suas próprias palavras, no Salmo 51). Todos os autores bíblicos foram pessoas que possuíram natureza pecaminosa, necessitando diariamente da graça de Deus (de acordo com Romanos 3:12).
A inspiração dos autores bíblicos não deve ser vista simplesmente como iluminação ou orientação divina, pois estas são prometidas a todos os que buscam a verdade. De fato, os escritores bíblicos, algumas vezes, escreveram sem compreender completamente a divina mensagem que comunicavam (1Pe 1:10-12).
A resposta dos escritores às mensagens recebidas nem sempre era uniforme. Por vezes, o profeta se sentia grandemente perplexo (Dn 8:27; Ap 5:4); outras vezes, ele pesquisava o significado tanto das revelações recebidas por ele próprio quanto as recebidas por outros (1Pe 1:10). Algumas vezes, os profetas se sentiam temerosos de proclamar a mensagem e até mesmo argumentavam com Deus a respeito dela (Hc 1; Jn 1:1-3; 4).
Método e conteúdo da inspiração. Frequentemente, o Espírito Santo comunicou o conhecimento divino por intermédio de visões e sonhos (Nm 12:6). Outras vezes, Ele falou audivelmente ou através de impressões íntimas. Samuel recebeu em seus ouvidos a informação divina (1Sm 9:15; cf. 1Sm 16:7). Zacarias recebeu representações simbólicas, com as devidas explicações (Zc 4). Paulo e João receberam visões celestiais acompanhadas de instruções orais (2Co 12:1-4; Ap 4, 5). A Ezequiel foram mostrados eventos que efetivamente estavam ocorrendo em outro lugar (Ez 8). Alguns até mesmo participaram de suas visões, desempenhando certas funções que constituíam uma parte da visão (Ap 10).
Quanto ao conteúdo, a alguns o Espírito revelou eventos futuros (Dn 2, 7, 8, 12). Em outros momentos, os escritores registraram eventos históricos, tanto com base em suas experiências pessoais quanto a partir de registros históricos já existentes (Juízes, 1 Samuel, 2 Crônicas, os evangelhos, Atos dos Apóstolos).
Inspiração e história. A afirmativa bíblica de que “toda a Escritura é inspirada por Deus” e é útil e plena em autoridade para servir de base à vida moral e espiritual (2Tm 3:16), não deixa dúvida quanto à orientação divina para a seleção de todos os materiais que se acham registrados na Bíblia. Quer os dados tenham sido colhidos por meio de observação pessoal, informação oral, fontes escritas ou revelação direta, todas as informações chegaram ao escritor pela orientação do Espírito Santo. Portanto, a inspiração divina na seleção dos materiais garante a plena confiabilidade das Escrituras.
A Bíblia revela o plano de Deus em Sua dinâmica interação com a raça humana, não em uma coleção de doutrinas abstratas. Sua autorrevelação acha-se intimamente entretecida com eventos reais que ocorreram em momentos de tempo e localidades definidos. Isto quer dizer que a confiabilidade dos dados históricos é extremamente importante, já que eles formam a infraestrutura de toda a compreensão humana do caráter de Deus e Seu propósito para a humanidade. Uma visão adequada e correta desses aspectos pode conduzir a pessoa à vida eterna, e, por outro lado, uma visão incorreta pode levar à confusão e morte.
Deus ordenou a certos homens que escrevessem a história de Seu relacionamento com Israel (Nm 33:1, 2; Js 24:25, 26; Ez 24:2). Essas narrativas proveem à humanidade uma história acurada e objetiva, baseada na perspectiva divina. O Espírito Santo concedeu aos autores compreensão especial para que eles pudessem registrar os eventos espiritualmente significativos, por meio dos quais ficasse demonstrado o caráter de Deus ao longo da controvérsia entre o bem e o mal, tendo em vista guiar o povo em busca da salvação.
Os incidentes históricos foram registrados para o nosso benefício. Eles constituem “tipos” e “exemplos”, e foram escritos “para advertência nossa, de nós outros sobre quem os fins dos séculos têm chegado” (1Co 10:11). Paulo diz: “Pois tudo quanto, outrora, foi escrito para o nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência, e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança” (Rm 15:4). Portanto, a destruição de Sodoma e Gomorra deveria servir “como exemplo” ou advertência para nós (2Pe 2:6; Jd 7). A experiência de Abraão, no tocante à justificação, deve constituir um exemplo para todo crente (Rm 4; Tg 2:14-22). Mesmo as leis civis do Antigo Testamento se encontram repletas de profundo significado espiritual, e foram escritas para nosso benefício hoje (1Co 9:8, 9).
Lucas menciona que escreveu seu Evangelho porque desejava oferecer um relato da vida de Jesus “para que tenhas plena certeza das verdades em que foste instruído” (Lc 1:4). O critério adotado por João para a seleção de incidentes da vida de Cristo, foi “para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em Seu nome” (Jo 20:31). Vemos, assim, que a inspiração divina habilitou os autores bíblicos a apresentar a história de tal forma que fôssemos guiados à salvação.
As biografias das personalidades bíblicas constituem outra evidência de divina inspiração. Esses relatos delineiam cuidadosamente o verdadeiro caráter das pessoas, pois apresentam tanto suas virtudes quanto suas fraquezas. Seus pecados são registrados com tanta fidelidade quanto seus sucessos.
Nenhum encobrimento é feito da falta de autocontrole de Noé ou dos enganos de Abraão. Os temperamentos de Moisés, Paulo, Tiago e João não são passados por alto. Os trágicos fracassos do mais sábio rei de Israel são expostos plenamente, bem como as fragilidades dos doze patriarcas ou dos doze apóstolos. Nenhuma escusa ou tentativa de minimização dos erros é oferecida. Todos são retratados do modo como realmente eram em seu íntimo, e aquilo que vieram a se tornar – ou deixaram de se tornar – pela graça de Deus. A partir de tais evidências somos forçados a concluir que, sem a inspiração divina, nenhum biógrafo teria sido capaz de prover tal análise.
Todas as narrativas históricas são vistas pelos autores bíblicos como eventos reais que efetivamente ocorreram, e não como símbolos ou mitos. Muitas pessoas demonstram-se hoje totalmente céticas no tocante ao relato de Adão e Eva, a experiência de Jonas e o dilúvio; Jesus, porém, aceitou esses registros como historicamente verdadeiros e espiritualmente relevantes (Mt 12:39-41; 19:4-6; 24:37-39).
A Bíblia não ensina que existe inspiração parcial ou graus de inspiração. Essas teorias, sem evidência bíblica, representam apenas especulações que tentam roubar às Escrituras a sua divina autoridade.
A exatidão das Escrituras. Assim como Jesus “Se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1:14), foi a Bíblia oferecida em linguagem humana para que pudéssemos compreender suas verdades. A inspiração da Bíblia garante sua confiabilidade.
Até que ponto teria Deus protegido a transmissão do texto sem garantir que as mensagens continuavam sendo verdadeiras e válidas? Torna-se claro, a partir da condição dos originais antigos, que Deus não protegeu Suas mensagens de leituras diferentes ou variadas, desde que as ideias e verdades essenciais fossem preservadas.[3] Muitos supostos erros foram afastados e se entendeu que representavam apenas uma compreensão equivocada dos eruditos, a partir das evidências providas pela arqueologia e pelo contexto cultural do Oriente Próximo, que ora emerge desta pesquisa. Por vezes, os problemas foram causados porque a leitura dos antigos costumes bíblicos foi efetuada à luz dos costumes atuais do Ocidente. Importante é reconhecer, pois, que os seres humanos podem compreender apenas parcialmente, e que sua visão das operações divinas é necessariamente limitada.
Devemos ser muito cuidadosos em não permitir que supostas discrepâncias minem nossa confiança nas Escrituras. Muitas vezes, elas representam apenas nossa incapacidade de ver o quadro total diante de nossos olhos. Porventura Deus se coloca em julgamento por meio de uma sentença que não pode ser plenamente compreendida? Os seres humanos jamais serão capazes de explanar todos os textos escriturísticos, e na verdade não necessitarão fazê-lo. O cumprimento das profecias atesta a veracidade das Escrituras.
A Bíblia tem sido preservada com estupenda e miraculosa precisão, a despeito de todas as tentativas de destruí-la. A comparação dos manuscritos do Mar Morto com manuscritos de elaboração posterior demonstra o cuidado com que ela foi transmitida.[4] Isso confirma a fidedignidade e confiabilidade das Escrituras como sendo a infalível revelação da vontade de Deus.
A autoridade das Escrituras
As Escrituras possuem autoridade divina porque nelas Deus fala por meio do Espírito Santo, fazendo com que a Bíblia seja a Palavra escrita de Deus. Onde podemos encontrar as evidências de tal pretensão? Quais são as implicações dessa pretensão em nossa vida e na busca do conhecimento que efetuamos?
As reivindicações das Escrituras. Os autores bíblicos testificam que suas mensagens não se originam com eles próprios, mas que provêm diretamente de Deus. Foi a “palavra do SENHOR” que veio a Jeremias, Ezequiel, Oseias e outros (Jr 1:1, 2; Ez 1:3; Os 1:1; Jl 1:1; Jn 1:1). Eles foram mensageiros do Senhor (Ag 1:13; 2Cr 36:16). Foi-lhes ordenado que falassem em nome do Senhor dizendo: “Assim diz o SENHOR Deus” (Ez 2:4; Is 7:7). Essas são as credenciais divinas de sua autoridade.
Por vezes, o ser humano que está sendo utilizado por Deus, passa a ocupar apenas o plano oculto. Citando Isaías 7:14, Mateus alude à autoridade que está por detrás da citação, dizendo: “Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que fora dito pelo Senhor por intermédio do profeta” (Mt 1:22). O Senhor é visto como o Agente direto – Ele é a autoridade; o profeta representa o agente indireto.
Pedro classifica os escritos de Paulo como sendo Escritura (2Pe 3:15, 16). O próprio Paulo reivindica a revelação para o evangelho que proclama, dizendo: “Porque eu não o recebi [o Evangelho], nem o aprendi de homem algum, mas mediante revelação de Jesus Cristo” (Gl 1:12). As palavras de Cristo são mencionadas como Escritura e colocadas no mesmo plano que os escritos do Antigo Testamento (1Tm 5:18; Lc 10:7).
Jesus e a autoridade das Escrituras. Ao longo de todo o seu ministério, Jesus salientou a autoridade das Escrituras. Quando tentado por Satanás ou em debates com os oponentes, “Está escrito”, era sua defesa e ataque (Mt 4:4, 7, 10; Lc 20:17). “Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4:4). Quando Lhe foi perguntado como poderia alguém entrar na vida eterna, Ele respondeu: “Que está escrito na lei? Como interpretas?” (Lc 10:26).
Jesus colocou a Bíblia acima das tradições e opiniões humanas. Reprovou constantemente os líderes judeus pelo fato de eles se desviarem da autoridade das Escrituras (Mc 7:7-9). Apelou muitas vezes a Seus oponentes para que estudassem mais cuidadosamente as Escrituras, dizendo: “Nunca lestes nas Escrituras?” (Mt 21:42; cf. Mc 12:10, 26).
Ele cria firmemente na autoridade da palavra profética e revelou que esta apontava para Ele próprio. As Escrituras, disse Ele, “testificam de mim”. “Porque, se, de fato, crêsseis em Moisés, também creríeisem mim; porquanto ele escreveu a meu respeito” (Jo 5:39, 46). As mais vigorosas reivindicações de Jesus no tocante a Sua missão divina como Salvador, basearam-se no cumprimento das profecias do Antigo Testamento (Lc 24:25-27).
Assim, Cristo aceitou sem qualquer reserva as Escrituras Sagradas como sendo a revelação autorizada da vontade de Deus em relação à raça humana. Ele a compreendia como um conjunto de verdades, uma revelação objetiva, concedida para guiar a humanidade para fora das trevas geradas por tradições e mitos falhos, conduzindo-a à verdadeira luz de um conhecimento redentor.
O Espírito Santo e a autoridade das Escrituras. Durante sua vida terrestre, a verdadeira identidade de Jesus não foi discernida pelos líderes religiosos ou pela multidão descuidada. Alguns criam que Ele era um profeta, à semelhança de João Batista, Elias ou Jeremias – ou seja, apenas um ser humano. Quando Pedro confessou: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”, o Mestre deixou claro que aquela confissão resultava de uma revelação divina (Mt 16:16). Paulo diz que tão somente por meio de iluminação divina pode alguém obter uma perspectiva correta de Jesus Cristo: “Ninguém pode dizer: Senhor Jesus!, senão pelo Espírito Santo” (1Co 12:3).
O mesmo ocorre com a Palavra de Deus escrita. Sem a iluminação da mente humana pelo Santo Espírito, a Bíblia jamais poderá ser corretamente entendida ou reconhecida como a expressão autorizada da vontade de Deus.[5] Uma vez que “as coisas de Deus, ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus” (1Co 2:11), conclui-se que “o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1Co 2:14). Consequentemente, “a palavra da cruz é loucura para os que se perdem” (1Co 1:18).
Tão somente com o auxílio do Espírito Santo, que pesquisa “até mesmo as profundezas de Deus” (1Co 2:10) pode alguém chegar a se convencer da autoridade da Bíblia como revelação de Deus e de sua vontade. É dessa forma que a cruz se torna o “poder de Deus” (1Co 1:18) e a pessoa pode se unir a Paulo no testemunho de que “não temos recebido o espírito do mundo, e sim o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente” (1Co 2:12).
As Sagradas Escrituras e o Santo Espírito jamais poderão ser separados. Deus, por intermédio do Espírito Santo, é tanto o autor quanto o revelador da Bíblia.
A autoridade das Escrituras sobre a vida de alguém aumenta ou diminui, em decorrência do conceito de inspiração que esta pessoa tem. Se a Bíblia for percebida apenas como uma coleção de testemunhos humanos, ou se a sua autoridade depende, de alguma forma, do modo como a pessoa se sente ou das emoções que manifesta, então a autoridade da Palavra é grandemente enfraquecida, senão completamente destruída. Mas quando ela é vista como a voz divina falando por intermédio dos autores, não importa quão frágeis e humanos sejam, então as Escrituras se tornam a autoridade absoluta em matéria de doutrina, reprovação, correção e instrução em justiça (2Tm 3:16).
O escopo da autoridade escriturística. Contradições entre as Escrituras e a ciência são frequentemente o resultado de especulação. A incapacidade de harmonizar a ciência com as Escrituras advém de “uma compreensão imperfeita, tanto da ciência quanto da revelação; corretamente entendidas, elas se encontram em perfeita harmonia”.[6]
Toda a sabedoria humana está sob a autoridade da Escritura. As verdades bíblicas são a norma pela qual todas as demais ideias devem ser provadas. Através dos séculos, as mentes finitas têm tentado julgar a Palavra de Deus de acordo com os seus padrões humanos, o que se assemelha a uma fita métrica que pretende medir as estrelas. A Bíblia não se encontra sujeita aos padrões humanos. Ela é superior a toda a sabedoria e literatura humana. Em vez de julgar a Bíblia, todas as pessoas serão por ela julgadas, uma vez que ela é o padrão de caráter e teste de toda a experiência e pensamento do homem.
Finalmente, as Sagradas Escrituras possuem autoridade sobre todos os dons espirituais que procedem do Espírito Santo, inclusive a orientação que nos vem através do dom de profecia ou de falar em línguas (1Co 12; 14:1; Ef 4:7-16). O Espírito Santo não foi prometido com o objetivo de se sobrepor à Bíblia; na verdade, todos os dons do Espírito devem ser testados pela Bíblia; se não estiverem de acordo com ela, devem ser descartados como não genuínos. “À lei e ao testemunho! Se eles não falarem desta maneira, jamais verão a alva” (Is 8:20; ver capítulo 18 deste livro).
A unidade das Escrituras
A leitura superficial das Escrituras conduzirá a uma compreensão superficial. Lida apenas descuidadamente, a Bíblia parecerá uma mixórdia de histórias ecléticas, sermões e história. Entretanto, aqueles que se encontram abertos à iluminação do Espírito de Deus, aqueles que se dispõem a cavar em busca das verdades escondidas por meio de paciente pesquisa e muita oração, descobrirão que a Bíblia apresenta uma estupenda harmonia. Existe unidade nos princípios da verdade salvadora, mesmo diante do fato de que a Bíblia foi escrita por várias dezenas de pessoas, ao longo de um período de mais de 1.500 anos. A Bíblia não apresenta uniformidade monótona, antes uma rica e colorida diversidade de testemunhos harmoniosos, todos eles revelando rara e distinta beleza. E em virtude dessa variedade de perspectivas, a Palavra de Deus é capaz de melhor satisfazer as necessidades humanas, confirmando sua relevância universal através de todos os tempos.
Deus não Se revelou à humanidade através de uma cadeia contínua de testemunhos ininterruptos, mas gradativamente, ao longo de sucessivas gerações. Quer tenha sido escrita por Moisés nos campos de Midiã, ou por Paulo em uma prisão romana, a Bíblia foi escrita por homens que receberam inspiração do mesmo Espírito Santo. A compreensão desta “revelação progressiva” contribui para a compreensão da Bíblia e de sua unidade.
Um exemplo claro de revelação progressiva é demonstrado através da harmonia existente entre o Antigo e o Novo Testamentos – a Palavra de Deus escrita. Embora tenham sido escritos no intervalo de várias gerações, eles são inseparáveis e não apresentam qualquer contradição nas verdades que revelam. Eles são um só, já que Deus é o mesmo. O Antigo Testamento, por meio de profecias e símbolos, revela o evangelho de um Salvador vindouro; o Novo Testamento, através da vida de Jesus, revela o Salvador que viera – ou seja, o evangelho tornado realidade. Ambos revelam o mesmo Deus. O Antigo Testamento é o alicerce do Novo. É a chave que abre o Novo. Por outro lado, o Novo Testamento explica os mistérios do Antigo.
Deus nos oferece um gracioso convite para pesquisarmos as Escrituras e nos tornarmos familiarizados com Ele. Podemos obter a preciosíssima bênção de termos assegurada a nossa salvação e de descobrirmos por nós mesmos que a Escritura é “útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça”. Por seu estudo, podemos ser perfeitos e perfeitamente habilitados “para toda boa obra” (2Tm 3:16, 17).